Seis passos da compaixão II

O Bom Samaritano, Delacroix em 1849
O cuidado entra nesta lista como o grande diferencial da compaixão. Cobrir as feridas com óleo era uma prática antiga e bem conhecida. Evitava que o ferimento ficasse exposto às infecções, dando ao organismo mais condição de se autorregenerar. Mas colocar vinho já é diferente. Qual seria a função do vinho neste caso? Eu sempre soube que vinho é bom pra curar outro tipo de ferida: dor de cotovelo, coração partido, reconhecimento póstumo etc. Mas aplicá-lo diretamente sobre uma ferida aberta, confesso a minha ignorância. Não deveria ser pelo teor alcoólico, pois o do vinho é muito baixo. Não é importante, o importante é que conscientemente ou não, o samaritano fez o que estava ao seu alcance. O que as suas entranhas o impulsionaram a fazer. Mais forte do que a consciência de não fazer o mal, ele é movido pela compaixão para fazer o bem.

No entanto, no momento em que coloca o ferido sobre o próprio animal ele se compromete bastante. Imaginem vocês se ele tivesse cruzado com um grupo de judeus naquela hora. Eles iriam bater nele primeiro e perguntar depois. Não poderia haver um motivo lógico para imaginar que o samaritano estava de boa intenção, só querendo ajudar. O comprometimento da compaixão traz consigo riscos. O simples fato de interagir com grupos marginalizados, já faz da pessoa um marginal também, e o samaritano mais do que ninguém sabia disso. Se alguém tem dúvida, que observe a expressão de surpresa da mulher samaritana quando Jesus se dirigiu a ela no poço de Jacó. Se o diálogo simples com um samaritano já era algo incomum, o que não dizer da sua presença numa cena de crime?

É somente nessa hora que eu posso entender as palavras de Jesus sobre o comportamento. Quando ele diz para cortar fora a mão que nos faz pecar ou tirar fora o olho que nos induz ao erro. É melhor ficar mutilado numa ação em favor do Reino, do que permanecer perfeitamente são, agindo contra ele. Dizia Paulo: o que é o sofrer para quem já foi considerado como ovelha para o matadouro?

Não sei também qual seria o procedimento correto de encaminhamento de uma pessoa ferida naquela época. Provavelmente seria levá-la a uma guarnição de Império Romano e registrar uma queixa. Hospital público, nem pensar. Se ainda hoje são raros e lotados, se é que existia algo semelhante, como seriam? Talvez algum bom coração levasse o ferido a um curandeiro e o deixasse lá, mas o samaritano o levou a lugar onde poderia tratar melhor dele. Nesse cuidado ele despende dinheiro. Um dinheiro que era fruto de um trabalho, que certamente o fazia correr o mesmo risco que o judeu assaltado correu. Um dinheiro que representava a sua própria vida.

Mas o sexto passo é que determina o sentido exato da compaixão. O samaritano, movido pela compaixão, não se satisfaz em atender apenas as necessidades imediatas do ferido, não se contém em fazer somente o necessário pelo necessitado, não se detém diante do bem simplesmente; ele quer o melhor. Ele quer ver a restauração completa e a cura realizada, por isso ele retorna depois de um tempo para certificar-se disso.

A Parábola do Bom Samaritano é largamente usada para mostrar a necessidade da Igreja em se engajar na ação social. Mas ele é mais do que isso, pois ela se refere a uma relação de iguais, de pessoas de níveis sociais equivalentes. Não fala exatamente de uma atitude de compaixão para com o pobre, mas de compaixão para com o próximo que está aflito.


É importante que se observe as duas perguntas que deram início ao diálogo que motivou Jesus a contar essa parábola: E eis que certo homem, intérprete da Lei, se levantou com o intuito de pôr Jesus à prova e disse-lhe: Mestre, que farei para herdar a vida eterna? (Lc 10.25), e a outra foi: Ele, porém, querendo justificar-se, perguntou a Jesus: Quem é o meu próximo? (Lc 10.29) Jesus dá um resposta que servirá para todo o sempre. O que eu fazer para herdar a vida eterna? O que eu preciso fazer para salvar a minha alma? Todas as vezes que nos perguntarmos isso, vamos tentar ouvir o que Jesus nos ensinou na parábola do Bom Samaritano: Quer salvar a sua alma? Cuide do seu próximo, tenha compaixão dele.
 
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