O que é ETIOLOGIA?

Nemrod, o primeiro homem  poderoso da Terra, autor não identificado
Na linguagem técnica da história das religiões o termo etiologia é relacionado muitas vezes com a noção de mito. Um “mito etiológico” seria uma narração que pretende explicar um uso ou instituição, um rito ou um monumento, um fenômeno da natureza (p. ex. nos astros) ou dos seres vivos (animais e homens) cujo sentido original não se compreendia mais. Tais “mitos”, porém, são o produto de um pensamento objetivo, de uma mentalidade racional, que procura o porquê das coisas; não se trata, portanto, no fundo, de invenções “poéticas”, ou de “símbolos”, exprimindo uma experiência subjetiva, mas antes de tudo uma tentativa de penetrar até o estado primitivo das coisas.

Ora, onde há essa procura racional das origens, dos fundamentos da vida, não se pode falar, propriamente, em “mitos”. Pois o mito possui um simbolismo extra temporal. É preferível, portanto, usar o termo “narrações etiológicas”. A narração explicativa muitas vezes tem fundamento nos fatos reais, cuja eficácia, com todo o seu vigor, continua sendo experimentada no rito.

Na Bíblia podemos distinguir dois tipos de narrativas etiológicas. Etiologias de uma instituição, muitíssimas vezes de alguma realidade religiosa ou cultual, p. ex., as narrativas sobre Betel, “casa de Deus” (Gn 28.11-19), Fanuel (Gn 32.32: não se come o músculo da coxa) ou sobre o “altar de Javé Salom” (Jz 6.24); em todos esses textos trata-se de instituições cultuais. Uma explicação semelhante é dada para a circuncisão (Ex 4.26: o “esposo sanguinário”) e a páscoa (Ex 12.1 1: passar por).

A questão jurídica a respeito da origem do direito das filhas herdeiras é resolvido por um caso concreto em Nm 36. Já bem mais folclorística parece a história da mudança da mulher de Ló numa coluna de sal (Gn 19.26). Outras narrações etiológicas nasceram do interesse pela origem da cultura, do homem, do universo. É estabelecida alguma relação entre o Sábado e a criação (Gn 2.1-3; Ex 20.11), entre o instituto do matrimônio e o primeiro laço conjugal (Gn 2.24: “por isso o homem abandona pai e mãe”, cf. Mt 19.5, alegando o “no princípio”).

Essas etiologias, sem dúvida, incluem a afirmação de algum fato real dos “primórdios”, qualquer que seja a apresentação. O seu alcance é muito maior do que, p. ex., o de Gn 10.9, onde se explica a expressão: “um caçador formidável diante de Javé, igual a Nemrod”. As vezes a historicidade do fundo etiológico é expressamente afirmada, como p. ex. em I Sm 27.6.

Etiologias de nomes de pessoas e lugares, relacionados com situações ou acontecimentos mais ou menos históricos. No caso dos nomes próprios trata-se antes de um jogo de palavras, querendo-se encontrar no nome uma caracterização da pessoa, sem que se estabeleça explicitamente uma verdadeira relação etiológica, isto é, causal. No caso dos topônimos a relação etiológica é relevada com mais clareza. Mesmo aqui pode haver um mero jogo de palavras, como p. ex. no caso de Babel (Gn 11.9), mas em outros casos, como, p. ex., no de Abel-mesraim (Gn 50.11), um acontecimento histórico forma o fundamento da etiologia.

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