Deus de vivos

Pois, quando os mortos ressuscitarem, serão como os anjos do céu, e ninguém casará. Vocês nunca leram no Livro de Moisés o que está escrito sobre a ressurreição? Quando fala do espinheiro que estava em fogo, está escrito que Deus disse a Moisés: “Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó.” E Deus não é Deus dos mortos e sim dos vivos. Lucas 12.25-27
A Ressurreição dos Santos, por volta de 1250
Na leitura do evangelho recomendada para hoje diz que alguns saduceus foram a Jesus para colocá-lo contra a Torah, mas diz também que seus corações foram atraídos por Jesus. De uma forma ou de outra, todos queriam aproximar-se de Jesus, mesmo que imbuídos de diferentes intenções.


A liturgia de hoje faz uma pergunta importante sobre a ressurreição dos mortos. O caso em questão diz respeito a uma mulher que havia se casado com sete irmãos. Um após outro, os maridos tinham morrido e ela não tinha filhos. Esta viúva, que tinha sido deixada sozinha por sete vezes, não era declaradamente estéril, mas foi condenada a uma vida de incerteza e esterilidade. Na ressurreição o que vai acontecer com essa mulher? Ela teve sete maridos, agora, na ressurreição, de quem ela seria esposa?

Com a sua perspicácia típica, Jesus responde alargando a perspectiva deles, para levá-los pouco a pouco a lógica da vida: os critérios da vida terrena não podem ser aplicados ao Reino de Deus, porque a diferença é substancial. Paulo dizia que o Reino não é uma questão de comida e bebida, mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo. Isso muda completamente a dimensão do que estava sendo proposto. Jesus cita a própria Torah em Êxodo 3.6, que é um texto que fala sobre Deus e não sobre a ressurreição. A partir do testemunho de Moisés invocando o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacó, Jesus conclui que Deus não é Deus de mortos, mas de vivos, porque para Deus todos esses patriarcas estão vivos na sua presença. Mas onde estaria a prova de que os mortos ressuscitam? Se Jesus descreve seu Pai como um Deus de vivos não de mortos, isso significa que Abraão, Isaac e Jacó estão vivos em algum lugar, mesmo que Moisés tenha proferido estas palavras há muito tempo atrás.

Na resposta aos saduceus, Jesus aproveita a oportunidade para corrigir também a crença dos fariseus, que entenderam a ressurreição em termos materiais: a mulher que teve sete maridos, na ressurreição será mulher de quem? Jesus diz que a vida dos mortos não é como o da Terra, é uma vida diferente, porque é divina e eterna e não transitória e volátil com a vida terrena. Jesus ousa a compará-la com a vida dos anjos, que para ele não são as criaturas gentis e complacentes que imaginamos. Na Bíblia, eles agem pelo poder de Deus, com um dinamismo que causa temor e espanto. Dentro dessa esfera de ação não caberiam os conceitos familiares e nem as preocupações da vida que tão bem conhecemos. Na ressurreição o efêmero se torna eterno. 

Com a cruz, Jesus não quis se livrar do efêmero, a fim de fugir para a eternidade. Pelo contrário. Através dela colocou a semente da eternidade no mundo para que o Reino de Deus cresça e introduza o padrão angelical de vida em nosso mundo. Mas antes de tentar esclarecer como a vida angelical transforma o efêmero em eterno, eu gostaria de salientar que os que afirmam que o matrimônio não tem consequências no céu, estão fazendo uma interpretação errada da resposta de Jesus aos saduceus. Ao afirmar, na versão escrita pelo evangelista Marcos, que os filhos deste mundo se casam e dão-se em casamento, mas aqueles que forem julgados dignos de alcançar o mundo vindouro e da ressurreição dos mortos não se casam nem se dão em casamento, Jesus rejeita a ideia que os saduceus apresentam da eternidade como uma simples continuação das relações terrenas entre os cônjuges, mas não descarta a possibilidade de que eles poderiam encontrar em Deus a união que os uniu na terra. 

Se não podemos viver agora a eternidade integralmente, podemos menos ainda espiritualizar o efêmero da vida humana. Por tudo isso é que o evangelho nos chama a viver a tempternidade, que é a dimensão transtemporal da criação. É viver à frente do nosso tempo, é priorizar o apofático, viver as experiências não catalogadas ou descritas. A teologia apofática insiste que a natureza divina está além das palavras, conceitos e entendimentos. Diferente da teologia tradicional, que se perdeu na confiança que Deus se resume nas imagens rígidas de Pai, Filho e Espírito, mas que nem de longe esgotou esse mistério. 

Não fomos condenados a viver uma vida solitária e estéril, mesmo que seguidas experiências tentem nos provar o contrário. Somos chamados a viver como anjos, quando debaixo da irrestrita obediência a Deus, se esconde o mistério da fraqueza que se faz forte, da humildade que exalta, da loucura que confunde os sábios e do amor que vence a morte. A ressurreição só começa quando a vida vence a morte.

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