Antes do galo cantar

Replicou Pedro: Senhor, por que não posso seguir-te agora? Por ti darei a própria vida. Respondeu Jesus: Darás a vida por mim? Em verdade, em verdade te digo que jamais cantará o galo antes que me negues três vezes. (Jo13.37s)
Pedro negando Cristo, Rembrandt em 1660
Uma biografia não muito detalhada da vida de Jesus poderia dizer que a sua vida durou exatamente o intervalo entre o canto de dois galos: aquele que, segundo a tradição católica, cantou na madrugada do dia do seu nascimento, que é comemorado por esta denominação cristã numa missa celebrada nada menos do que por sua Santidade, o Papa, e o galo que cantou na madrugada do dia em que Jesus foi crucificado para denunciar a negação de Pedro. Parece que o galo entra na vida de Jesus através dos extremos, não somente anunciando o começo e o fim da sua vida, mas também na extrema alegria do nascimento há muito profetizado, e na extrema tristeza de uma morte injusta e não justificada.

Muito embora o canto do primeiro galo não seja um consenso entre os cristãos, não paira qualquer dúvida sobre a importância do canto do segundo galo para Pedro, por conseguinte, para toda a cristandade, pelo menos era essa a expectativa dos quatro evangelistas, que unanimemente retrataram este episódio em particular.

Sem a menor pretensão de tentar colocar algum espírito de poder no pobre animal, ou demonizar o seu belo canto, vejo que a nossa busca pelo Reino que foi anunciado por Jesus até as últimas consequências deve se dar no intervalo entre os cantos dos dois galos, nunca antes e jamais depois. Ou seja, de nada adianta esperar que o Salvador volte, e que novamente venha realizar a obra que foi dada como consumada na cruz do Calvário, como pede um música “Todos estão surdos” de autoria do Roberto Carlos, que é sempre cantada em tom muito piedoso: Meu amigo volte logo / Vem olhar pelo meu povo / O amor é importante / Vem dizer tudo de novo. Como também não adianta ter esperança de que o Espírito Santo, que o sucedeu, nos traga alguma novidade diferente daquela que aprendeu com Jesus enquanto os galos ainda cantavam: quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. (Jo 16.13)

Vivemos, desta forma, entre a expectativa dos idosos do templo, Simeão e Ana, de ver o Salvador nascer, não mais em Belém, mas em nossos corações, e a de não decepcioná-lo totalmente, negando o fato de termos estado com ele, quando as circunstâncias nos forem adversas. É importante observar que os sinais continuam presentes, que os galos continuam cantando, e que nós, como sempre, estamos repetindo os mesmo erros de julgamento: ora colocando a nossa esperança em promessas que não encontram respaldo na boca dos autênticos profetas de Deus, ora na ilusória expectativa de milagres que não tem anuência da fé.

A Quaresma é o tempo propício para este tipo de reflexão, e a Semana Santa o tempo mais que propício para decisões. O que vamos fazer depois do depois do primeiro galo ter cantado anunciando e antes do segundo galo cantar denunciando. O elemento da fé de mais difícil assimilação é justamente esse: não importa o que aconteceu antes, assim como não nos diz respeito o que acontecerá depois. Corremos o risco das pessoas pensarem que a fé cristã é um tipo de filosofia imediatista, mas o que realmente importa é o hoje, o tempo de Deus é o agora: Se hoje ouvirdes as sua voz, não endureçais o vosso coração, porque depois que o galo cantar só vai restar mesmo o arrependimento.

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