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| Imagem copiada de www.abb.com |
De passagem, observei a propaganda de uma campanha promovida pela Revista de Aparecida que dizia algo assim: Não convide estranhos para dentro do seu carro, em uma clara alusão às fitas do Senhor do Bonfim que estavam penduradas no retrovisor na foto que tomava toda a página. Confesso que me surpreendi com o uso da palavra estranho para um adereço que é algo semelhante a outro massiçamente comercializado no entorno da basílica que leva o seu nome. Sem querer entrar em detalhes, gostaria de fazer um breve comentário das coisas estranhas que tem entrado em nossos carros, em nossas casas e, principalmente, em nossas igrejas.
De antemão quero ressalvar que passo a considerar estranhos tão somente os objetos de culto de outra religião que estão sendo desavisadamente ou não, usados em nossas igrejas. Acho perfeitamente válido e normal que uma religião lance mão dos seus símbolos, amuletos e imagens nos seus cultos, assim como reconheço que estes têm um significado tão marcante, que a minha ignorância sobre o assunto não me dá direito de fazer qualquer julgamento.
Ainda com relação às fitas do Senhor do Bonfim, vejo que a liderança da Igreja Católica Romana tem sérias reservas ao seu uso pelos fiéis. Imagino que a campanha vise combater algum tipo de sincretismo religioso que estes objetos vêm demonstrar. Talvez um sincretismo antigo com as religiões de origem africana que entrou nesta igreja pelo contato com os escravos, que até certo ponto foi permitido, mas que agora está sendo combatido por não encontrar eco nas doutrinas católicas. Pode ser também que esta campanha, mais do que combater símbolos estranhos, tenha por finalidade restaurar a verdadeira fé apostólica, segundo a tradição desta Igreja, pois nada é mais comum nas residências de muitos cristãos do que estátua de Buda, elefantes da sorte, olhos da Capadócia ou amuletos orientais. Estes são mais flagrantemente identificados.
E quando o sincretismo se estabelece com respaldo bíblico entre as religiões que fazem uso deste livro, o que fazer? Sabemos bem que a maioria das relíquias da Igreja Católica se apresenta como verdadeiras abominações no conceito de muitas igrejas protestantes. Por que não acontece assim com os símbolos do Judaísmo que invadiram de vez as nossas igrejas? Por que não posso fazer o sinal da cruz, mas posso tocar um shoffar? Por que posso me curvar diante de uma réplica mal enjambrada da Arca da Aliança, mas não posso render graças diante da imagem de Maria, mãe de Jesus, que foi a única mulher declarada santa na rígida avaliação das Escrituras Sagradas? Por que as igrejas tradicionais, mesmos as de mais monolítica doutrina, se dobraram às práticas neopentecostais que combatiam severamente há pouco mais de cinquenta anos?
Continuamos presos ao velho bordão dos Dez Mandamentos que proíbe o uso de imagens, sem procurar entender a complexa profundidade do texto e desprezando qualquer consideração sobre o seu contexto. Não levamos em conta os eventos históricos que levaram a igreja cristã ser o que ela é, na mesma proporção em que desconhecemos suas causas e suas consequências.
A palavra estranho é por demais apropriada nesta questão, porque na realidade, os objetos de culto de outros credos são tão estranhos quanto às práticas e doutrinas de outra denominação que vagam livremente em nossas igrejas. Para poder identificar o que é e o que não é estranho o fiel deve conhecer, antes de tudo o que é próprio da sua igreja, para depois, então, saber se deve ou não dar o seu aval.

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