Sob pressão

Jesus diante de Herodes Antipas por Nicolua Knüpfer
Herodes ficou muito triste, mas, por causa do juramento que havia feito na frente dos convidados, não pôde deixar de atender o pedido da moça. Marcos 6.26

Texto baseado em sermão do rev. Garrison.

Quando os pais exigem que o futuro profissional do filho seja uma consequência natural do trabalho deles, autonomamente à vontade do filho, a pressão sobre o rapaz pode se tornar insuportável. Quando o marido chega à conclusão de que nada agrada a sua mulher e que tudo o que faz é insatisfatório, sua vida se torna uma pressão constante. Quando a secretária sente que tudo no escritório a faz enlouquecer, porque tudo que requer sua máxima e exclusiva atenção em todo tempo, o ambiente de trabalho fica a ponto de explodir. Quando um membro de igreja imagina que tem todas as respostas sobre a fé e tenta converter todos ao seu ponto de vista, ele exerce uma pressão forte para tornar as pessoas iguais a si. O jovem pastor confessou desabafou: Existem tantas vontades na minha congregação que não tem como agradar a todos. Todos querem me moldar à sua vontade, e isso me deixa sob intensa pressão.

Todas essas pessoas estão sofrendo pressão que vem dos outros. Todos temos um limite de tolerância para suportar as pressões que a vida exerce sobre nós. Horários, responsabilidades, necessidades, porém, estas pressões são diferentes da pressão de outra pessoa, e todos temos sobre nós, em maior ou menor escala, esta pressão que vem dos outros. O problema é que a pressão dos outros revela a nossa própria incerteza e expõe a ambivalência que existe dentro de nós. Por causa dos outros nós somos forçados a fazer e a dizer coisas que não queremos dizer nem fazer. No final, nós não gostamos de nós mesmos, justamente pelo fato de nos deixarmos controlar pela força de coação deles.

O que mais se ouve em um ambiente de trabalho é a seguinte frase: eu não trabalho sob pressão. Mas o que muitos de nós não sabem é que somos nós mesmos quem criamos essa pressão. Nós igualmente fazemos força sobre a vontade das outras pessoas para fazer, para reagir, para cumprir e apara se conduzirem conforme os nossos valores e desejos. Para conseguir isso usamos a nossa personalidade, a persistência, a influência e tudo mais que seja preciso para impor a nossa vontade. O pior de tudo é que estamos sempre achando que fazemos isso pelo bem deles. O pastor é o astro principal nesse tipo de assunto, porque de cima do púlpito não faz outra coisa senão apontar, denunciar, exigir e repreender. E o faz usando os mais variados recursos: gritos, intimidação, medo, silêncio, beiço, ameaças e excomunhões.

Tudo isso é a negação do nosso ser, a frustração, o cerceamento da liberdade. É o preço de querermos ganhar a aprovação e a popularidade, mas o que não sabemos é o quanto o preço desse ato é alto. Herodes que o diga, pois vivia sob intensa pressão, tanto do Império Romano, quanto das pessoas à sua volta. Nosso texto bíblico é um texto patético. Vamos lê-lo de novo: Herodes ficou muito triste, mas, por causa do juramento que havia feito na frente dos convidados, não pôde deixar de atender o pedido da moça.

Nem todo o poder que ele tinha era suficiente para fazer a sua própria vontade. Ele foi coagido pelos outros a não fazer aquilo que sabia ser o certo. Sua consciência o acusava constantemente, pois bastou uma breve visão do ministério de Jesus para fazer tremer sua estrutura: Ele é João Batista! Eu mandei cortar a cabeça dele, e agora ele foi ressuscitado! Herodes foi atingido em cheio pela lembrança do seu pecado. Um rei que foi exposto, que agia como um boneco tomado pela decepção, pelo medo e por memórias aterrorizantes. A angústia de alguém que se viu obrigado a ceder às pressões dos outros.

Por outro lado temos João Batista, que não estava sob a pressão de quem quer que fosse. Seu compromisso único era com o Reino de Deus. João não temia Cesar e muito menos Herodes. Seguindo à risca a tradição dos antigos profetas proclamava a verdade nua e cruamente da maneira que a percebia. Ele expunha o mal onde quer que este estivesse, e ele não precisou se esforçar muito para enxergá-lo na casa de Herodes.

O ministério de João Batista fascinou Herodes. Ele admirava a sua coragem, sua santidade, sua veemência, pois João era tudo o que ele gostaria de ser e não era. Ele viu uma grandeza tamanha no Batista que se rendeu a ela. Mas ele não era suficientemente forte para suportar a mensagem desafiadora de João, ainda assim, ouvia as suas palavras de boa vontade, como diz o texto. A mensagem de João Batista exercia nele uma pressão criativa para que mudasse e se arrependesse. Mas, infelizmente, ele se deixou levar por uma influência maior. Herodias estava furiosa com João e queria matá-lo. Mas não podia porque Herodes tinha medo dele, pois sabia que ele era um homem bom e dedicado a Deus. Por isso Herodes protegia João. E, quando o ouvia falar, ficava sem saber o que fazer, mas mesmo assim gostava de escutá-lo. Marcos 6.19-20

A pressão maior sobre Herodes vinha de Herodias, a mulher de seu irmão, com quem havia se casado ilicitamente. O homem estava perplexo mesmo, mas também, quem na situação dele não estaria? Ele, na sua confusão mental, estava tentando seguir a verdade da mensagem de João Batista e ao mesmo tempo apaziguar o ódio de sua mulher pelo profeta. Era a perplexidade da pressão dos outros. O rei não podia fazer nada com João, por causa da pressão que a sua mensagem exercia sobre ele, mas também não podia libertá-lo, por causa da pressão de sua mulher. Ele estava paralisado sob condições extremas, apesar de todo o seu poder.

Herodias aproveitou uma ocasião em que Herodes deu um banquete para as pessoas importantes do seu governo: executivos de empreiteiras, funcionários do primeiro escalão do seu governo, chefes militares e políticos e autoridades de Brasília. Desculpem-me, confundi o século, quis dizer da Galileia, é claro. Nesta festa, a filha de Herodias dançou e agradou a todos os presentes. Inebriado pela beleza da moça e pela sensualidade de sua dança, Herodes prometeu o absurdo: Marcos 6.22-24 - Então o rei disse à moça: — Peça o que quiser, e eu lhe darei. E jurou: — Prometo que darei o que você pedir, mesmo que seja a metade do meu reino! Ela foi perguntar à sua mãe o que devia pedir. E a mãe respondeu: — Peça a cabeça de João Batista.

Herodes se viu preso em uma inescapável armadilha. Dominado pela pressão do pedido bizarro de sua enteada e da palavra empenhada diante de seus convidados, ele deu a ordem, e foi assim que João Batista morreu. Por um breve tempo, eu acredito, a pressão sobre Herodes havia se abrandado um pouco. Ele tinha realizado a vontade da sua mulher, tinha se livrado da mensagem inoportuna de João e ainda de quebra havia mostrado aos seus convidados que ele ainda tinha poder. Mas foi por muito breve período essa refrescante sensação, e o texto bíblico prova isso. Logo lhe sobreveio uma pressão diferente. Era uma pressão muito mais tormentosa do que todas pressões humanas que ele já tinha experimentado até então: a pressão da culpa e do medo passaram a lhe perseguir.

Quando notícias sobre o ministério de Jesus lhe chegaram, o rei sentiu de novo o horror da pressão. Mas não era mais humana e sim do Espírito de Deus. Aquela alma atormentada pela culpa não poderia receber essa notícia como uma novidade apenas, senão como um atestado da sua culpa. Herodes nunca mais iria pôr tranquilo a sua cabeça em um travesseiro. Ele se lembrou que seu pai havia mandado matar todos os meninos em Belém. Seu pai havia destruído a vida de algumas famílias, mas ele estava frustrando a esperança de milhares de pessoas que seguiam João.

Mas Deus tem a palavra final, e ele sempre tem. Esta história que Marcos nos contou e que custamos entender devido a sua crueldade é bastante extrema em suas circunstâncias e também bastante grotesca em sua realidade. Por isso creiam que há uma série de implicações nessa história conhecida por todos nós. Por isso eu gostaria de fazer algumas perguntas sobre a pressão que outros exercem sobre a nossa vontade. São perguntas que tratam de nossas vidas, que tratam dos meios que usamos para conseguirmos fazer com que os outros façam a nossa vontade. Todos nós estamos no mesmo dilema, e esse deve ser um dos grandes problemas de nossa existência como seres humanos: Como impressionar os outros com os nossos propósitos para fazê-los agir como nós queremos? Só não me digam que eu sou o único que tenta fazer isso. Nós queremos dominar os outros para fazê-los iguais a nós. Vamos ver como fazemos isso.

Primeira pergunta: Para conseguir o que você deseja, coisas boas, é claro. Nós pastores sabemos o que os membros das igreja precisam, por isso nos esgoelamos nos púlpitos a cada domingo para que eles aceitem a nossa palavra e ajam como nós queremos que eles ajam. Como fazemos isso? Às vezes retiramos a nossa atenção sobre os rebeldes. Retiramos também a palavra desafiadora. Deixamos claro que não precisamos da sua aceitação.

Segunda pergunta: Você tem usado o poder que dispõe para motivar as pessoas agir conforme o seu planejamento?

Terceira: Você usou a represália ou o medo de rejeição para manter os outros na sua linha?

Quarta: Você crê que as pessoas à sua volta têm a capacidade de discernir a verdade e segui-la?

Quinta: Você está inteirado da sua responsabilidade para conquistar os outros para fazerem o que é bom para eles?

Última: Você é capaz de declarar a verdade sob todas as condições?

Estas perguntas nos perturbam porque basicamente nós somos inseguros e arrogantes. A raiz da nossa pressão sobre os outros é uma incerteza terrível que nos conduz a uma raiva enrustida. Nós queremos dominar os outros porque não somos dominados pelo amor de Deus. Nós tentamos convencer os outros porque nos achamos os donos da verdade.


Como é conosco? Nós vivemos debaixo da pressão de alguém? Você exerce pressão sobre os outros? O oposto da pressão é a motivação. Qual das duas você tem usado? Como é o seu casamento? Como você consegue convencer o cônjuge a fazer o que é melhor para ele? E os nossos filhos? Nós queremos o melhor para eles, mas como conseguimos fazer com que eles atinjam seu melhor quando eles não concordam conosco? E na igreja? Como é que motivamos a melhor instituição do mundo para atingir os alvos de Reino de Deus? Como manipulamos os membros para agir como desejamos? Como os membros influenciam os pastores para não abordar os assuntos que eles não gostam?

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