Inevitável X Responsável I

A consciência de Judas, Nikolai Ge (1831-1894)
Pois o Filho do Homem vai morrer da maneira como dizem as Escrituras Sagradas; mas ai daquele que está traindo o Filho do Homem! Seria melhor para ele nunca ter nascido! Leiam Mateus 26.17-25

Aqui existe um paradoxo. O paradoxo consiste de duas afirmações de uma mesma realidade que aparentemente se contradizem, mas que nenhuma é completa sem a outra. O paradoxo que temos nesse texto vem das palavras de Jesus, e foram ditas no Cenáculo, em Jerusalém, na hora do jantar da Páscoa, quando Jesus estava falando da intenção de Judas em traí-lo. Podemos encontrar o mesmo texto nos evangelhos de Marcos e de Lucas. Por um lado nós temos Judas, que ia cumprir o Plano Divino: O Filho do Homem vai morrer como as Escrituras Sagradas dizem. Judas deveria fazer o que fez em obediência ao Plano Divino. Por outro lado, Judas iria sofrer por ter traído Jesus: Aí daquele que está traindo o Filho do Homem. Seria melhor para ele nunca ter nascido.


Aqui estão duas afirmações que aparentemente se contradizem, mas nenhuma é completa sem a outra. A Bíblia nos diz em várias ocasiões que era inevitável que Jesus fosse entregue as autoridades. No caminho de Emaús Cristo, já ressuscitado, diz aos seus companheiros de viagem: Como vocês demoram a entender e crer em tudo que os profetas disseram: que era preciso o Cristo sofrer e assim receber de Deus a sua glória. A Bíblia nos diz que foi inevitável mesmo. Mas certamente, ao mesmo tempo, nos dá a entender que Judas é também responsável. De fato, Judas testifica da sua responsabilidade por meio de seu remorso. Ele sentiu todo o peso da sua culpa por ter traído Jesus quando devolveu as trinta moedas de prata, e mais ainda quando deu cabo da sua vida através de um suicídio violento.

Como podemos entender essa contradição aparente? O discípulo que traiu seu mestre estava apenas fazendo o que estava predeterminado, mas ao mesmo tempo recebeu o castigo por ter feito aquilo. Se uma situação é inevitável, como alguém pode ser responsabilizado por ela? Se temos alguém que optou por trair, como se diz que essa traição foi inevitável? Esse paradoxo não é encontrado apenas na vida de Judas Iscariotes e nem somente na Bíblia. Ele aparece vez após vez na vida de cada um de nós. Na Teologia chamaríamos esse paradoxo de predestinação e livre arbítrio. Na Psicologia ele aparece todas as vezes que tentamos entender algo do nosso passado. Na Igreja, sempre que tentamos ajudar alguém. No cotidiano ele aparece todo dia nas nossas atitudes para com os outros. De fato, este paradoxo faz parte da nossa missão como cristãos no mundo. As pessoas são responsáveis pelas suas próprias vidas ou elas são o que são porque é inevitável? Somos responsáveis ou não?

Onde existe um paradoxo como esse, somente uma pessoa insensata teria a temeridade de eliminar uma das proposições citadas. Ninguém está preparado para defender um determinismo total, como não há ninguém apto hoje em dia para defender uma liberdade total. A maioria sensata escolheria os dois, como é apresentado no nosso texto bíblico. Nós vemos a vida como uma mistura dos dois. Somos livres, a escolha é nossa, mas também cremos que Deus tem um plano para cada um de nós. Temos que, da melhor maneira possível, viver com os dois.

Cada pessoa na sua época tem que encontrar o equilíbrio entre os dois, porque para cada geração em seu século se apresenta uma relação diferente entre duas situações. Qual seria o nosso equilíbrio hoje? Seria três partes de determinismo para uma parte só de liberdade? Não sei, mas duvido que sejam em partes iguais, porque tenho a impressão que os grandes problemas que temos no mundo hoje são causados, na maioria das vezes, pelo mau uso da liberdade e não pelo determinismo inevitável. Mas infelizmente grande parte da população, e aqui não importa o credo, imagina ser a vida noventa por cento de inevitabilidade e dez por cento de responsabilidade.

Vejam os seguintes dados: o interesse crescente entre os não cristãos na astrologia e na previsões de futuro e na igreja pelo conhecimento antecipado de bênçãos. Hoje mais do que nunca as pessoas estão ligadas ao determinismo. Para muita gente, o mundo espiritual determina tudo o que vai acontecer. Não fazem nada sem consultar seus horóscopos, seus gurus, seus apóstolos ou seus pastores. Estamos aqui para obedecer o que 
as estrelas dizem, o que os pais de santo determinam, o que os espíritos sugerem e o que os apóstolos profetizam. (continua)

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