Coisas novas e coisas velhas

Retrato de Jean Miélot, Jean Tavernier (?-1460)
Então, lhes disse: Por isso, todo escriba versado no reino dos céus é semelhante a um pai de família que tira do seu depósito coisas novas e coisas velhas. Mateus 13.52

No final do capítulo 13 de Mateus, Jesus faz através de quatro parábolas analogias em que o seu objetivo comum era a elucidação da sua proposta radical de mudança de vida. Mudança para a qual conclamava abertamente a cumplicidade de Deus, seu Pai. Esse projeto de mudança que fora previamente anunciado pelos profetas como o terrível Dia do Senhor, na pregação de Jesus perde o seu aspecto fatalístico de um único dia decisivo, para ganhar a dimensão de um estado de coisas que se inaugura com o seu ministério, mas cujo fim é a eternidade. O projeto chamado por ele de Reino de Deus ou Reino dos Céus.

Além de falar com mais clareza sobre a Parábola do Semeador, Jesus fala também da semelhança que o Reino de Deus tem com uma rede repleta de pescados bons e ruins, um terreno que oculta um tesouro de grande valor, da pérola mais valiosa de todas e, finalmente de um baú em que tem em seu conteúdo coisas novas e coisas velhas. Podemos entender com certa facilidade as três parábolas que comparam o Reino de Deus a objetos de valor pecuniário, mas a analogia com um baú que serve para guardar qualquer tipo de objeto escapa totalmente ao paralelismo dessa lógica. Mas se observarmos bem, veremos que as parábolas são apresentadas em uma ordem crescente de especialização profissional. Para que uma pessoa encontre um tesouro em um terreno precisa se valer unicamente da sorte. Diferentemente de um negociador de pérolas, cuja habilidade requer um pouco de conhecimento específico e treinamento adequado. Mas para ser um pescador de sucesso, do tipo que enche redes, aí sim, é necessário um longo e penoso aprendizado.

Contudo, ainda que consideremos todos esses dados, podemos nitidamente nos ver por inteiros no contexto dessas parábolas, pois elas pressupõem uma certa abrangência e inclusão. O que não acontece com a parábola do baú, pois a execução desse empreendimento, segundo Jesus, requer dois elementos fundamentais: primeiro: ser um escriba, alguém que se dedicou com afinco ao estudo da Lei; segundo: ser versado na doutrina do Reino. Essa sim é a pessoa que sabe como tirar do baú as coisas velhas do Primeiro Testamento, e associá-las ás coisas novas do Segundo Testamento. Trazendo a parábola para a realidade atual podemos entender que ela fala a respeito de professores cristãos que, através do estudo profundo dos evangelhos, a exemplo dos antigos escribas que estudavam a Lei com extrema dedicação, conseguem conciliar a boa nova com o melhor que a lei judaica tem a oferecer à Igreja.

Conciliar coisas novas com coisas velhas é conhecer o equilíbrio perfeito entre as novas experiências de fé e o ensinamento dos antigos heróis dessa mesma fé. Muito sabiamente Jesus estava assegurando a continuidade e a integralidade do discipulado na sua Igreja. Aquele que é alcançado pelo Reino que ele veio anunciar, jamais deve considerar que seus estudos chegaram ao fim, mas se ver sempre em uma escola em que constantemente se ensina e constantemente se aprende.

Algumas traduções do texto dizem: aquele que foi feito discípulo é comparado ao chefe de família que traz à tona coisas novas e coisas velhas. É como um chefe de família, que tem uma casa sob seus cuidados, assim como os ministros do Evangelho tem. Esta família é a igreja de Deus, chamada casa de Deus, família da fé ou casa espiritual. Uma família composta por idosos, jovens e crianças, dos quais Cristo é efetivamente o chefe e o mestre. Mas os que são por ele chamados tem a responsabilidade de administradores, que sob a inspiração do seu ensino presidem essa casa. Suas funções precípuas são: servir alimento como faz um simples garçom, proteger a família contra os lobos vorazes que querem devorá-la e defendê-la contra todos os ventos de doutrinas estranhas que soprarem contra ela. Para isso se exige grandes dons e habilidades, grande amor e carinho, muita sabedoria e prudência, conhecimento e inquestionável fidelidade, integridade e coragem e firmeza de mente e de propósitos.

Orígenes nos deixou o paralelo autêntico e preciso para esta parábola quando a resgatou do mais antigo preceito de lei: Para vós outros olharei, e vos farei fecundos, e vos multiplicarei, e confirmarei a minha aliança convosco. Comereis o velho da colheita anterior e, para dar lugar ao novo, tirareis fora o velho. Porei o meu tabernáculo no meio de vós, e a minha alma não vos aborrecerá. Andarei entre vós e serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo. Lv 26.9ss

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