O que é APOCALIPSE?

Arcanjo Miguel, Guido Reni em 1636
Muito mais abrangente do que o conhecido livro que sustenta este título, o Apocalipse faz parte de um segmento da literatura hebraica que é inconcebível a todas as outras culturas que já habitaram o nosso mundo. Sua origem vem do grego apocalotein, que significa desvendar, revelar ou simplesmente tirar o véu: Certamente, o SENHOR Deus não fará coisa alguma, sem primeiro revelar o seu segredo aos seus servos, os profetas. (Am 3.7) Apenas nas Escrituras encontramos esse verbo indicando que tais revelações são de origem divina, sentido que não é encontrado no grego clássico ou popular.


Portanto, baseando-se exclusivamente na etimologia não há como chegar ao significado que este tipo de literatura tem para o pensamento judaico-cristão, pois qualquer definição que leve em conta esses fatores, exprimiria apenas a forma característica, nunca o seu conteúdo.

Os apocalipses da Bíblia formam um gênero literário à parte, que nasceu e floresceu no século II a.C. e se extinguiu por volta do século I d.C., um dos períodos mais angustiantes do Judaísmo. Eles começaram a aparecer durante a perseguição que Antíoco IV, o Epífanes, empreendeu sobre os judeus. Não havia mais profetas, então, debruçados sobre os oráculos de Deus contidos no Primeiro Testamento, o povo começou a buscar respostas que permitissem ver através das circunstâncias extremamente negativas, o caminho para o prometido futuro glorioso. Este modo de pensar encontrou respaldo nos textos canônicos dos profetas Isaías, Ezequiel, Zacarias e Joel, que já forneciam exemplos do gênero apocalíptico: O sol se converterá em trevas, e a lua, em sangue, antes que venha o grande e terrível Dia do SENHOR. (Jl 2.31)

Esta literatura caracterizava-se por uma fantasia exuberante, muitas vezes bizarra, que lançava mão de imagens antiquíssimas, de mitos da criação, e de fatos ocorridos com civilizações já extintas, para codificar uma mensagem, que para sua época era atual, mas que somente podia ser interpretada e entendida por aqueles que conheciam os elementos passados e presentes da sua história, e os confrontavam com as Escrituras Sagradas. Animais simbolizavam homens; as feras, os povos pagãos; os anjos foram divididos entre: os dignos de honra, que eram as pessoas que permaneceram fiéis, e os anjos caídos, as pessoas que haviam apostatado da fé. Usavam essas figuras para descreverem o futuro dentro de um esquema fixo, quase determinista, que fatalmente se consumaria no final da história humana.

Quase sempre o autor se transportava duzentos ou mais anos no passado, para falar do futuro recente deste tempo, que, tanto para ele quanto para a sua geração, já há muito havia se consumado. Nesta consumação, Israel tem um lugar de destaque, salvaguardado de todo o cataclismo resultante, considerando a si mesmo a razão primordial dessa avassaladora manifestação de Deus. Quem olha atentamente para certas manifestações dos cultos cristãos de hoje, pode ter uma ideia bem aproximada do que consistia a prepotência dessa exclusiva eleição, agravada pelo fato de não nos encontrarmos em situação de perigo real, como era exatamente o passado desses autores judeus.

Esses escritores devem o seu conhecimento às visões, que não eram acessíveis à maioria das pessoas. Valiam-se vez por outra de um angelus interpres, anjo intérprete, que acompanhava o vidente, e o consolava em suas crises com explicações mais complexas do que as próprias visões. Os autores também utilizavam a autoridade de uma personalidade do passado para respaldar os seus escritos. Abraão, Enoc, Adão entram como a pseudepigrafia do texto para sugerir que a obra esteve guardada por séculos, e que foi preservada justamente para aquele grupo, para ser divulgada somente naquele tempo.

Como se pode ver, a literatura apocalíptica em nada se assemelha à astrologia babilônica, à mitologia grega, ao Zoroastrismo ou a qualquer forma de oráculo revelador do futuro. Além disso, esta literatura do período intertestamentário é a ponte que associa definitivamente esses dois Testamentos, pois ela anuncia que o fim de todo tipo de opressão é chegado, e que a liberdade pode ser experimentada neste mundo, a despeito de qualquer situação que se pronuncie como contrária.

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