Não ter medo nem esperança é desumano

Meu Deus remirá a minha alma do poder da morte, pois ele me tomará para si. Salmo 49.15
Rev Jonas Rezende, foto de George Magaraia
Texto do rev. Jonas Rezende.

Paulo de Kruif abre seu livro A Luta Contra a Morte com uma frase que quase todos podem repetir com sentimento semelhante: não quero morrer. Fora do desespero máximo de um processo de depressão ou do suicídio heroico, como os dos kamikases, na Segunda Guerra, ou dos monges vietnamitas; e descontando exceções de místicos que, à semelhança do apóstolo Paulo, confessam com a alma: para mim o morrer é ganho  ̶  fora estes poucos casos, o chamado anos atrás do instinto de conservação nos leva a endossar as palavras de Paul Kruif.

Mas apesar do medo ou da tristeza, é preciso pensar na morte, como fazem os filhos de core neste salmo. Leia todo o poema. Às vezes com melancolia, outras com um certo sentimento de rancor dos que enriquecem e são poderosos, apesar de injustos e perversos, a verdade é que o salmista fala da morte como inevitável. Por isso ridicularizam os que se julgam perpétuos ou dão seu nome às propriedades que possuem. E declaram que o ser humano se nivela aos animais, porque também perece: tal como ovelhas, são postos na sepultura; a morte é o seu pastor... a sua glória não os acompanhará.

Há mesmo um tom de melancolia, amargura e saudade a cercar esse assunto. Percebemos esse dom na afirmação de Davi: andamos sempre a um passo da morte. Às vezes a melancolia se faz pânico. Um famoso ateu suplicou diante da morte: dá-me morfina; não quero pensar na eternidade. De certa maneira, o próprio Jesus sofria ímpeto semelhante, quando orou: Pai, se for possível afasta de mim este cálice. Jens afirmou com absoluta razão: não ter medo nem esperança é igualmente desumano. Não é por isso que a Bíblia chama a morte de última inimiga?

Mas é preciso que se afirme que há um lado precário e impotente na morte. O apóstolo Paulo repete Oséias, o profeta, com nítido atrevimento: onde está, ó morte, a tua vitória? Tragada foi a morte na vitória... para mim o morrer é ganho.

A fé cristã anuncia a morte da própria morte, quando prega a ressurreição, escândalo para romanos e loucura para os gregos.

Um tipo de filosofia também desenvolve certo desdém diante da morte. Sócrates é um exemplo. E Anaxágoras dá um passo alem: pisa essa carcaça, diz ele, porque em mim mesmo jamais tocarás.

Mas, veja só. A morte tem um lado curioso e interessante, quando novela todos os homens, todas as formas de vida, como está claro neste salmo. Na Idade Média, o povo costumava dramatizar a dança da morte. Nessa teatralização, a morte assobiava fortemente chamando a todos, fossem qual fosse o seu status ou classe social. Todos eram igualmente convidados a dançar. E o mais importante é que o Papa, o rei, o judeu, o aleijado eram igualmente aceitos, nessa democracia niveladora e inseparável da morte.

Assim, diante da morte devemos nos lembrar, acima de tudo, de que é o próprio Deus quem aceita todas as pessoas. E que apenas o amor verdadeiro é mais forte do que a morte. Por isso esse amor sobrevive.

O escritor francês Victor Hugo, que cultivava a vida espiritual, tem um pensamento que é bem mais que simples jogo de palavras:

Quando você nasceu, todos sorriam só você chorava.
Viva de tal maneira que, quando morrer,
Todos chorem e só você sorria...

O meu amigo, pastor Jonas Rezende, para minha imensa alegria aceitou o convite para colaborar com uma meditação semanal para este blog (coisa de amigo mesmo). Autorizou pessoalmente que se publicasse trechos de dois dos seus grandes sucessos: os livros Salmos para o Coração, o texto de hoje é um deles, e Salmos para o Espírito, como o que foi publicado neste blog no dia 24 deste mês. Ambos lançamentos da Editora Mauad. Espero que aproveitem como eu estou aproveitando essa rara oportunidade de conhecer a interpretação do livro dos salmos através da visão inspirada e inspiradora deste grande pregador do evangelho, que é tido por muitos, inclusive por mim, como o maior orador sacro da nossa língua ainda vivo.  

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