Não a nós

Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome. Salmo 115.1
Flagelo de Tercio, bispo de Icônio, anônimo em 985
Existem aspectos na revelação divina que se não observados, podem muito bem contradizer ou até mesmo negar o propósito final desta revelação. O cristão tem que estar sempre alerta porque os sinais que acompanham a revelação nem sempre trarão experiências de êxtase, como também nem sempre serão agradáveis aos olhos e ouvidos daqueles que não creem. Fundamentado em dois textos bíblicos eu queria fazer uma rápida análise de alguns aspectos das manifestações de Deus através dos seus servos, que corroboraram com a ideia inicial desta meditação.

O primeiro texto é o de Atos 14.1-18 que narra a incrível mudança de cenário diante da pregação de Paulo e Barnabé nos contextos das cidades de Icônio e Listra. Cidades que eram tão próximas que, nos critérios de hoje, Listra faria parte da grande Icônio ou viceversa. Esses missionários da Igreja de Antioquia passaram, em um curto espaço de tempo, pela experiência de serem escorraçados e apedrejados em Icônio para elevados à categoria dos maiores deuses do Olimpo em Listra, pelos gregos dessas duas cidades. Há que se descontar aqui a nítida cumplicidade atribuída aos judeus pelo evangelista Lucas em todos os acontecimentos negativos relacionados aos cristãos, desde o martírio e morte de Jesus, o Cristo.

O único diferencial que se pode com relativa certeza afirmar é que em uma cidade aconteceu a cura e uma deficiente, o que não aconteceu na outra cidade. Deixando de lado por um momento este dado, que para muitos pode ser fundamental, eu pediria que consideramos apenas a atitude de Paulo e Barnabé em ambas as situações. De Icônio fogem assustados e possivelmente feridos por pregarem um evangelho que estava sendo aceito tantos por judeus como por gentios. Paulo faz citação a alguns apedrejamentos dos quais escapou, porém nunca disse que saiu ileso de qualquer deles. Podemos dizer textualmente que saíram de Icônio carregando sobre si as cicatrizes da pregação do evangelho, isso na sua primeira viagem missionária. Este deveria fazer com que eles repensassem a sua estratégia e voltassem a Antioquia para reformular todo o programa evangelístico. Mas não, parece que a recepção negativa e traumática fez com que eles se encorajassem mais ainda.

Já na cidade de Listra aconteceu o oposto. Não foram recebidos simplesmente como arautos dos deuses, mas como verdadeiros deuses. Em honra a presença deles seriam sacrificados os touros sagrados, fato que os deixou profundamente revoltados, a ponto de rasgarem as suas vestes em sinal desta contrariedade. Podemos bem dizer que em Listra tanto Paulo quanto Barnabé receberam dos homens os maiores louros que o evangelho pode trazer.

Este texto deixa bastante claro que a pregação do evangelho não é para agradar ninguém, e sim para confrontar o homem com o seu estado de pecado. O ser humano diante do evangelho só pode tomar duas decisões: converter-se à sua mensagem, ou revoltar-se ferozmente contra ela. Qualquer outra situação diferente dessas torna-se uma autêntica negação aos seus propósitos.

O segundo texto, antes que eu me esqueça, é o que serviu de título para a meditação: o primeiro versículo do salmo 115. O texto que nos leva a redirecionar tanto os aspectos visualmente negativos do ministério cristão, quanto àqueles que são aceitos definitivamente como positivos, tendo em vista os propósitos de Deus para as nossas vidas. Que experiência poderia ser mais marcante na vida desses missionários do que a que fez saírem do quinto dos infernos, sem se deixarem abater, para o terceiro céu, sem reivindicarem para si qualquer tipo de glória?

Mais uma vez é ressaltada a recomendação de João Batista: Importa que ele cresça e eu diminua. Pena que nas igrejas protestantes a lembrança deste salmo não seja tão frequente nas liturgias como é nas igrejas católicas. Seria sempre bom que nos lembrássemos que nada do que nos acontece é por mero acaso. Todas as coisas concorrem para o bem individual dos que amam a Deus e para o bem coletivo daqueles que, mesmo sem saber, anseiam pela manifestação plena do seu Reino, seja em Icônio, Listra ou nos confins da terra.

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