Jesus e a Mulher I

Filhas de Jerusalém, Chris Gollon (1953-)
Leiam João 4:5-27 e Isaías 61:1-3, 8-11

Sermão de Elisa Gusmão pelo Dia Internacional da Mulher de 2013.

Às vezes, ao lermos textos do VT, e até mesmo do NT, não podemos negar que a nossa religião foi marcadamente patriarcal em sua fundação. Por esta razão, desde sua chegada, o feminismo tem desafiado nossa religião e levantado muita controvérsia entre os cristãos. Vamos examinar o que Jesus Cristo fez e disse, em relação às mulheres. Espero que isso nos leve, quem sabe, a reexaminar algumas de nossas próprias ideias sobre o sexo feminino, ou o chamado "sexo frágil".

No final de 2012, fomos inundados nos noticiários britânicos por comentários sobre um tal Jimmy Saville e seu comportamento abominável em relação a meninas adolescentes. Não importa  quantas vezes elas tentaram fazer queixas sobre ele, parece que ninguém jamais lhes deu ouvidos. Tratava-se simplesmente de mulheres muito jovens – que, por sua juventude e fragilidade, não eram levadas a sério. Hoje a justiça inglesa se depara com cerca de 400 processos movidos contra Saville – depois de sua morte.

Adolescentes também não eram importantes no tempo de Jesus. E Jesus começou a mudar isso, mesmo antes de nascer: porque sua mãe engravidou ainda solteira, num tempo e num país onde as mães solteiras não eram apenas insignificantes, mas também corriam o risco de, como castigo, serem apedrejadas até a morte. Ainda antes de nascer, Jesus já estava mudando um costume judaico de raízes profundas; e José recebeu de Deus a ordem de aceitar sua noiva, e tornar-se o pai adotivo de Jesus.

Mas será que ainda há vestígios de patriarcado à nossa volta nos dias de hoje? Será qua ainda temos vestígios de sociedade patriarcal hoje em dia?. Eu sei que hoje na Grã-Bretanha, em lares não muito longe do meu, há mulheres que são considerados como cidadãs menos importantes, incapazes de contribuir de qualquer forma relevante para a vida social, cívica, intelectual ou religiosa - mulheres que vivem dentro dos limites de suas casas, e que não têm outro propósito na vida que não seja servir aos seus maridos e filhos. O que me dizem das mulheres brasileiras?

Esta era, caracteristicamente, a realidade da vida das mulheres antes de Cristo. Citando a autora Elaine Storkey em What’s Right with Feminism: A sociedade judaica da época de Jesus "ainda subestimava as mulheres de forma muito acentuada. Uma mulher era considerada menor de idade a vida toda; só poderia divorciar-se se o pedido partisse do marido. Não recebia os ensinamentos do Torá como seus irmãos (Marta e Maria). Uma mulher não poderia passar pelo pórtico dos gentios no templo de Herodes. E, para lembrar a tentação de Adão por Eva, qualquer homem estava proibido de ficar a sós com uma mulher, exceto se fossem casados. Um homem não deveria olhar para uma mulher casada, e os líderes judeus eram considerados profanados se olhassem diretamente para uma mulher."

Jesus e sua ‘praxis’ com relação às mulheres
Nós, cristãos, muitas vezes falamos do lugar especial que Jesus deu as mulheres durante seu ministério na terra. Mas eu ainda acho que não estamos plenamente conscientes de como ele foi revolucionário a este respeito. Talvez a misoginia de grandes nomes cristãos (até muito queridos), como Tertuliano, Crisóstomo, Agostinho, Tomás de Aquino, Lutero e Calvino, e até Carl Barth e Dietrich Bonhoeffer, roubaram a Igreja daquilo que poderia ter sido um passo de gigante rumo à justiça e igualdade. Se Cristo é a pedra fundamental da nossa fé, é apenas por um engano enorme que se pode tratar homens e mulheres de forma diferente. Aliás parece - pela frequência com que são citados e à importância que lhes é dada nos Evangelhos – que os samaritanos, cobradores de impostos e as mulheres – eram o tipo de pessoas com quem Cristo andava sempre, e aqueles que o aceitaram de imediato.

Seu reconhecimento das mulheres lhe é devolvido na cruz:(Mt 27:55-56): “E o centurião e os que com ele guardavam a Jesus, vendo o terremoto, e as coisas que haviam sucedido, tiveram grande temor, e disseram: Verdadeiramente este era Filho de Deus. E estavam ali, olhando de longe, muitas mulheres que tinham seguido Jesus desde a Galileia, para o servir;”. É muito significativo que elas não tiveram medo de estar ali; e que foram elas que visitaram seu túmulo no início no 3º dia. Sim, elas o tinham aceitado como Mestre e em breve se tornariam as primeiras testemunhas de sua ressurreição; mas, ao não abandoná-lo naqueles momentos terríveis, eles estavam sendo gratas a alguém que mudou radicalmente a forma pela qual eram tratadas.(continua)

Elisa Gusmão é brasileira, residente em Watford,  na Inglaterra onde é presbítera da igreja local. Fez cursos de Teologia na FaTeo, em São Paulo, Seminário Teológico Unido, em New York e na London School  de Northwood. É coautora da  Soweit die Wolken Gehen, publicada pela Burckhardthaus, Berlin e  da Light for Our Path, da IBRA. 

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