Uma coisa puxa outra

Limpeza do templo por Bernardino Mei
Então disse à figueira: — Que nunca mais ninguém coma das suas frutas! E os seus discípulos ouviram isso. Quando Jesus e os discípulos chegaram a Jerusalém, ele entrou no pátio do Templo e começou a expulsar todos os que compravam e vendiam naquele lugar. Marcos 11.14-15

Apesar de parecer estranho para nós hoje o método que Jesus usou neste instigante contexto é bastante conhecido na Bíblia. O método que se vale de um sinal pouco convencional para chamar atenção e servir de advertência sobre uma ação futura mais impactante e mais dramática. Foi assim com as nove pragas no êxodo, com a lã molhada no chão seco e vice versa com Gedeão. Contudo, Jeremias, a meu ver, deu o mais acintoso de todos os sinais, quando em meio à multidão despedaçou uma grande e cara bilha de louça para adverti-los sobre o perigo iminente da sua destruição, que de fato aconteceu num espaço de tempo muito curto após o seu sinal.
O que o profeta fez com as mãos Jesus fez com palavras. O profeta mostrou ao povo que a nação seria quebrada sem condição de ser reparada, e Jesus, na figueira, anuncia o fim da atividade infrutífera de um templo condenado pela iniquidade. Os motivos do não foram omitidos do texto, e eles estão aí para nos desafiar, no sentido de que façamos uma análise profunda e consciente daquilo que costumamos chamar de “ira santa”.
Com tanta riqueza de detalhes fica praticamente impossível que alguém queira crer que esta foi uma atitude impensada ou movida simplesmente por uma indignação momentânea. Ele teve uma noite inteira para refletir sobre o que ia fazer no dia seguinte. Pelo que dá para perceber não foi uma das suas melhores noites. Tudo indica que nem comeu direito, porque logo de manhã cedo teve fome. Mas também não foi, como muitos pensam, um ato de violência gratuita e exagerada. Foi uma atitude tão condizente com a situação, que nem mesmo os soldados romanos se alarmaram ou tentaram detê-lo. Era de tal modo pertinente que os seus acusadores não ousaram arrolar este fato ao processo no dia do seu julgamento perante Pilatos. Mais parecia que Jesus estava fazendo o que muitos ali gostariam de ter feito, mas que não faziam porque lhes faltava coragem. Jesus foi o porta voz da indignação de todas as pessoas de bem, o braço direito de todos aqueles que repudiavam aquela situação vexatória em um lugar em que a santidade era exigida.
Logicamente que não eram as ofertas dos ricos o motivo da indignação de Jesus. O evangelista fala especificamente da pomba, pois esta representava o sacrifício pelo pecado do pobre. É a oferta expiatória daquela pessoa ou família que não tinha recursos para comprar sequer um animal maior para a sua alimentação, quanto mais para oferecê-lo no templo. Mesmo na antiga lei havia uma prescrição específica para aquele marginalizado pelo capital pudesse, através de um sacrifício acessível, porém, agradável a Deus, fazer a expiação pelo seu pecado. A pomba é uma ave em abundância naquela região, por isso, mesmo o ofertante que não tinha condição de comprá-la, poderia muito bem capturá-la e ofertá-la. Mas os adendos interesseiros à Lei Mosaica passaram a exigir a oferta de animais previamente purificados, que eram, logicamente, aqueles vendidos com aval e bênção das autoridades, nas bancas do mercado que se formava na entrada comum do templo. (continua)
  
Leitura: Marcos 11.11-26


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