Uma coisa puxa a outra II

Jesus e os cambistas do templo, autor não identificado
Jesus sentencia com chicotadas este atentado vil à consciência de quem iria passar um ano inteiro julgando-se indigno pelo fato de não poder pagar o exorbitante preço que estava sendo cobrado pelo animal que, na concepção teológica sacerdotal, seria o único elemento a lhe propiciar o perdão até a próxima Páscoa. Muito embora Jesus não estivesse nem um pouco preocupado em cumprir os adendos à lei de Moisés que regulamentava tais sacrifícios, ele está atento à dor do indigente, porque é assim que alguém se sente quando não possui os recursos mínimos necessários para cumprir os rígidos rituais da expiação.
Mesmo que Jesus tenha condenado com veemência este aviltante atentado contra o pobre no templo, a maioria das igrejas cristãs insiste em mantê-lo funcionando sob a forma de dízimo, como regra de fé e condição primaz para a adesão de qualquer pessoa ao seu rol. O conhecido “daí a Cesar o que é de Cesar” tem que ser adaptado à condição momentânea, porque anterior e acima da prescrição de toda e qualquer lei, Jesus já havia determinado a vontade de Deus para esta questão: A lei foi feita por causa do homem, e não o homem por causa da lei.
Mas o texto também apresenta um segundo símbolo não menos poderoso, o cambista. Se a pomba nos remete à preocupação com os pobres, o câmbio faz referência ao estrangeiro. Convém observar que o estrangeiro no texto bíblico tem tudo a ver com o imigrante e nada a ver com o turista. Trata-se especificamente daquela pessoa, judia ou não, que chega a Jerusalém trazendo moeda estrangeira e tenta adaptar-se ao regime local fazendo a troca dos seus parcos recursos. Trata-se aqui daquele exilado político que foi banido de seu país natal, ou daquele que por motivos de sobrevivência sujeitou-se a viver como um errante e sem direitos num país estranho, e depende inteiramente da sua hospitalidade.
Jesus foi também veemente contra aqueles que oprimiam os estrangeiros através do câmbio injusto. Este texto está diretamente relacionado ao profetismo de Jeremias, quando este já havia antecipado: Será esta casa que se chama pelo meu nome um covil de salteadores aos vossos olhos? Eis que eu, eu mesmo, vi isto, diz o Senhor (Jr 7.11). Ninguém precisou contar-lhe, Jesus havia presenciado no dia anterior as falcatruas que eram ali praticadas com a anuência dos sacerdotes. Mas o texto também tem relações profundas com Isaías, quando este dita o que estaria estabelecido por Deus para ser o templo: Aos estrangeiros que se chegam ao Senhor, também os levarei ao meu santo monte e os alegrarei na minha Casa de Oração; os seus holocaustos e os seus sacrifícios serão aceitos no meu altar, porque a minha casa será chamada Casa de Oração e será para todos os povos (Is 56.6-7). (anterior) (continua)

Leitura: Marcos 11.11-26

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