A noite escura da alma

Terra de Cockayne, Pieter Bruegel
Você já passou por momentos em que absolutamente nada dá certo? Quando todas as esperanças morrem no seu nascedouro e quando não consegue enxergar qualquer possibilidade de solução? Quando suas preces parecem ser ignoradas, pois você se vê no mais completo abandono? E quando esse sentimento se estende por um longo período de tempo? Uns chamam isso de “maré de azar”, outros de carma e outros de provação. Na minha terra dizem que o sujeito “tomou uma bola nas costas”. São João da Cruz chamava de “A noite escura da alma”.

São João da Cruz, um frade carmelita espanhol que viveu no século XVI, é considerado como um dos grandes místicos da fé cristã, porém, devido à sua proeminente cultura, foi apelidado de “Doutor Místico”. A noite escura da alma é um poema que descreve as dificuldades que a alma humana encontra para se desapegar-se das coisas do mundo material para unir-se totalmente com o seu Criador.

No nosso caso em particular, em que não possuímos a erudição do doutor João, pode ser traduzida com incrível precisão pelos ditados populares: “estar no mato sem cachorro”; “como cego em tiroteio”, ou no atual: “mais perdido que o Lula em uma biblioteca”. Mas, brincadeiras à parte, é uma das sensações mais terríveis pela qual uma pessoa de fé pode se encontrar.

Você já se imaginou em uma situação em que os cultos não lhe dizem nada, ou pior, quando você já sabe tudo o que vai acontecer em seguida; quando os sermões não passam de frases desconexas, chatas e sem qualquer sentido; quando os hinos cantados não refletem o seu estado de espírito ou não lhe impulsionam a um novo estado de espírito; quando a leitura dos Salmos de vitória parecem retratar a vida de alguém bem distante de você ou que jamais conheceu; quando a meditação diária não traz a novidade que o evangelho tanto apregoa.

Pois é, depois de um intenso confronto de cinco dias com o pensamento ateu-darwinista-materialista estou me sentindo assim. E não sei bem se é fruto de um estágio que já havia começado bem antes disso, mas o fato é que nos primeiros dias desse ano me dei férias coletivas. Como se pode observar, a maioria das postagens desse período é de colaboradores. A minha participação ativa se resumiu a meia dúzia de textos desconexos. Estaria eu no mesma canoa que São João da Cruz, no mar tempestuoso da descontinuidade da dúvida, em plena noite escura da minha alma?

Eu já demonstrei em várias situações a falta que me faz um dos maiores críticos e colaboradores desse blog, o falecido amigo João Wesley Dornellas. Já falei também da carência das tardes-noites em que passava “trabalhando” a minha teologia com meu grande mestre reverendo Jonas Rezende. E que dizer das férias prolongadas que o reverendo Paulo Schütz tirou do blog, então, estas nem consigo avaliar.

As minhas grandes questões da atualidade se fundamentam todas em um ponto específico: o que exatamente eu estou fazendo em Aracaju? Aliás, essa é uma pergunta que muitos me fazem. A despeito de ser uma bela cidade; das pessoas daqui serem gentis e simpáticas; da minha saúde ter melhorado em quinhentos por cento; de morar em uma bela casa à beira-mar; de pedalar vinte quilômetros quase todo dia, bom, apesar de tudo isso, mesmo longe dos gramados e do Rio de Janeiro, parece que levei uma bola nas costas e que está difícil correr atrás.

Nesta hora é que avaliamos a verdadeira poesia do hino que diz: as tuas mãos dirigem meu destino. Em momentos como esse é que fica difícil dizer que todas as coisas concorrem para o bem dos que amam a Deus. Em que as palavras confiar, entregar e esperar se perdem em meio ao desperatio que Bonhoeffer descreveu com tantos detalhes. A graça de Deus é de graça, mas não é barata não. Essa é a hora de avaliarmos o quanto ela custa.

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