A grande derrota

Isaque abençoa Jacó, Gerrit Willemsz Horst
Vendo este que não podia com ele, tocou-lhe na articulação da coxa; deslocou-se a junta da coxa de Jacó, na luta com o homem. Disse este: Deixa-me ir, pois já rompeu o dia. Respondeu Jacó: Não te deixarei ir se me não abençoares. Leia Gênesis 32.22-30

Texto baseado em sermão do rev. William Garrison.

Aquilo que a pessoa semeia, isto ceifará. O melhor negócio sempre foi a honestidade. Estas são frases apenas conhecidas, como também aceitas consensualmente. Que ninguém nos ouça: como podemos explicar a história de Jacó? O que podemos aprender dessa história nada edificante? Como a Bíblia exalta um patriarca com esses precedentes? A começar pelo nome dele. Jacó significa trapaceiro, mentiroso e enganador. E ele era isso mesmo. Ele era um ladrão, mas um ladrão que teve um enorme sucesso. Ele era um ladrão que ganhou tudo o que queria. Como vamos entender e explicar isso, hein?

Onde está a honestidade? Onde está aquele que ceifa o que semeou? Em vez de ser punido por sua infração; em vez de pagar pelo seu erro; em vez de ser banido pelas suas falcatruas; em vez de se arrepender das suas trapaças; Jacó saiu-se muito bem. Seu velho pai, Isaque, parece que não deu a importância devida à tragédia familiar. Sua mãe, Rebeca, que sempre o amou mais do que ao seu irmão Esaú, nunca foi capaz de lhe dirigir sequer uma palavra de repreensão. Somente Esaú reagiu como era de se esperar. Ele ficou furioso por ter sido enganado por seu irmão e jurou matá-lo o mais rápido possível.

Fora o ódio de seu irmão, Jacó não sofreu qualquer punição por sua desonestidade. Pelo contrário, tirou grande vantagem dela. Não somente recebeu a bênção do pai, como também ganhou os direitos da primogenitura, e ficou tudo por isso mesmo. Parece que ninguém pensou mal dele não. Parece que e a sua credibilidade não foi abalada. O único preço que pagou foi ter que fugir por um tempo, até que a ira de Esaú se dissipasse. Isso até podia incomodar, mas vejam as coisas extraordinárias que lhe aconteceram no seu exílio. Esse traidor da família, na sua fuga, atravessou o rio Jordão sozinho, e era tão pobre que possuía apenas um cajado de pastor. Ali, quando estava acampado teve a maravilhosa visão da escada e recebeu a promessa de Deus de posse da terra que estava pisando e de uma descendência incontável como as estrelas do céu (Gn 28 e 29).

Melhor impossível. Por isso volto a perguntar: onde está a honestidade? Onde está aquele que ceifa o que semeou? Eu tenho problema para entender essas coisas. Será que é verdade? Claro que sim. Aposto a minha vida como é verdade. Porém, na profundeza do ensinamento da Palavra de Deus, o melhor negócio é de fato sempre ser honesto. Mas nós temos que nos lembrar que ninguém pode dizer isso até que se diga algo mais primeiro. E é o seguinte: no mundo atual, no mundo em que vivemos, no nosso país a desonestidade vence, a corrupção funciona. Não estou falando da desonestidade extrema, de crimes hediondos e nem da roubalheira no alto escalão. Estou falando da desonestidade de Jacó, que nos é muito familiar, pois é aquela que nos dá alguma vantagem, e nós seríamos tolos negássemos que ela existe. Como este texto de Gênesis nos diz, a pessoa ambiciosa e astuta aplaca a sua consciência para poder deitar e rolar nesse mundo. Esse Jacó do Brasil vai muito bem, obrigado.

Eles constroem mansões, eles recebem comissões disfarçadas de favores, eles vivem a melhor vida possível, e não estou falando de corruptos declarados, não. Estou falando daqueles que, como nós, vivem uma vida correta dentro da lei, mas que de vez em quando manipulam as pessoas e as coisas para alcançar os seus objetivos.  Aquilo que o jurista Miguel Reale Jr. descreve como esperteza safada discreta. Não existe lei contra se tirar vantagem da estupidez alheia. O mundo está cheio de pessoas como Esaú. O mundo está cheio de otários prontos para serem enganados por nós e pelos outros. O mundo também está cheio de amantes dos Isaques, aqueles que amam os espertos, não importando as consequências. Da mesma forma, nós sabemos que nossos pais vão continuar nos amando independente da nossa conduta.

Então, se podemos tirar vantagem sem sermos condenados, sem sermos censurados e todos que podem fazem o mesmo, por que não fazer? O problema fica pra depois, quando quisermos voltar para casa e enfrentar aqueles a quem enganamos.(continua)

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