Gigantes que não morrem

Davi e Golias, R Leinweber
Mas Davi retrucou ao filisteu: "Tu vens contra mim com espada, lança e escudo; eu, porém, venho a ti em nome de Iahweh dos Exércitos, o Deus dos exércitos de Israel que desafiaste. Davi pôs a mão no seu bornal, apanhou uma pedra que lançou com a funda. Desse modo Davi venceu o filisteu com a funda e a pedra: feriu o filisteu e o matou; Davi correu, pôs o pé sobre o filisteu, apanhou-lhe a espada, tirou-a da bainha e a cravou no filisteu e, com ela, decepou-lhe a cabeça. I Samuel 17.45-50

A história da Bíblia mais conhecida e, talvez por isso, mais apreciada pelas crianças de todo o mundo é, sem dúvida, o duelo entre o jovem Davi e o gigante Golias. Por gerações essa história foi contada literalmente através de flanelógrafos com gravuras toscas e de outros recursos ainda mais simples que este. Este parábola viva hoje em dia é exibida em data show, em alta definição, contudo, com uma série de restrições com vista a torná-la politicamente correta e acessível aos sensíveis ouvidos das gerações atuais. Já não se pode mais dizer que Davi matou Golias. Por que poderia se, da mesma forma, já não se pode mais cantar que atirei o pau no gato, e nem que o cravo brigou co a rosa. Sem querer contestar o modernismo das ciências sociais que desembocou nesta conclusão, quero dizer para a igreja que em termos doutrinários, isso tudo é uma enorme baboseira.

Segundo este pensamento daqui para frente vamos ter que contar às crianças que Jesus não morreu na cruz, que Estevão não foi apedrejado, que Paulo não foi decapitado e que não houve cristão sequer que tenha sido devorado por leões nas arenas romanas. Se o intuito de tudo isso na vida secular é evitar que as crianças se tornem mais tarde adultos neuróticos com tendências criminosas, o que podemos projetar para o futuro das nossas crianças na sua reflexão teológica e na sua vida de testemunho? Será que iremos formar cristãos mais conscientes, mais amorosos e mais fiéis? Será que estamos criando uma geração de grandes pregadores, de aguçados teólogos e ferrenhos ativistas evangélicos?

Até onde posso perceber, estamos criando sim uma geração de levitas, de ministros de louvor, de apóstolos e de ungidos do Senhor, que além de constituírem a casta superior e privilegiada da igreja, são também se tornaram intocáveis, inquestionáveis e irrepreensíveis, pois segundo eles mesmos apregoam: ai daquele que tocar no ungido do Senhor.

O que mais me entristece nisso tudo é perceber que os citados Paulo, Estevão, o próprio Jesus, não tiveram a lucidez de tomar esse versículo devidamente engendrado pelos asseclas do rei Saul, para ameaçar e repelir de vez os seus inimigos juntamente com as suas ameaças. Causa-me um sentimento de profunda derrota constatar que, por conta dessa inadmissível falha, esses incautos cristãos tivessem que passar por tantos tormentos e aflições, em nome de um evangelho que, segundo o evangelismo atual, disponibiliza uma quantidade enorme de artefatos protetores e frases de efeito libertador. Seria totalmente vã esta afirmação de John Piper. Se o amor de Deus para com seus filhos é medido por nossa saúde, riqueza e conforto nessa vida, então Deus odiou muito o apóstolo Paulo.

Não sei onde isso começou, mas posso traçar um perfil da situação a que tudo isso está nos levando. Se não podemos mais contar as crianças o furor da batalha, também não vamos poder contar que de quem são os méritos da indescritível vitória, e assim, vamos dar mais crédito e mais louvor aos que se anunciam como guardiões da autêntica, única e aceitável forma de adoração. O versículo base dessa meditação, e que orienta todo o desenrolar da situação é esse: não é pela espada nem pela lança que Iahweh concede a vitória. Foi exatamente isso que Israel aprendeu naquele dia. Que não são os nossos dons e atributos que fazem a diferença, que não é a beleza da voz que torna o louvor mais digno, que não são os títulos ou diplomas que podem traduzir mais fielmente a vontade de Deus. A ação do Espírito de Deus, mesmo nas formas mais incompreensíveis e, ao nosso ver, politicamente incorretas, é que faz a diferença.

Realmente estamos criando uma geração de cristãos iludidos. É por isso que as ciências sociais têm conseguido influenciar tanto a doutrina da igreja, quando a influência deveria se impor de forma exatamente contrária. É por conta disso também que estamos começando a tratar as histórias da Bíblia como contos de fadas, assim como são os contos épicos de várias religiões pelo mundo, como as Mil e uma noites. Podem ter a certeza de que por trás disso tudo há uma ameaça infinitamente maior, por isso bem nos advertiu Gilbert Cherteston sobre o perigo das ilusões que esses contos criam: Contos de fadas não fazem as crianças acreditarem que monstros existem. As crianças já sabem que eles existem. Contos de fadas fazem as crianças acreditarem que monstros podem ser mortos por nós.

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