A cana quebrada I

O peso da opressão, Paulo Zerbato
Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Is 42.3

Texto baseado em sermão do rev. William Garrison.

Há um mundo novo para ser construído, e com ele uma humanidade nova para se afirmar. Essa é a tarefa dada por Deus à igreja: assumir responsabilidades, exorcizar o mal, entronizar o humano. É a tarefa dos fiéis nessa vida. Mas parece que a sociedade assumiu esse papel. De todos os lugares chegam notícias de gente que está brigando pelos seus direitos com vistas a um mundo novo, um mundo melhor. Por outro lado, de outros lugares chegam também manifestações de apoio a esses movimentos de luta. Parece que está todo mundo brigando junto. Essa é a tônica do secularismo dos nossos dias, brigar junto pelos direitos. Parece que todo mundo quer vencer a luta. Mas o Reino de Deus é exatamente o oposto. Ele não é para os vencedores não. O Reino de Deus é para os derrotados, os pobres, os que são subjugados.

Em um dos nossos rituais da Santa Ceia dizemos: Pai Celestial, nós confessamos que temos pecado contra ti e nosso próximo. Nós temos andado nas trevas e não na luz; Temos clamado o nome de Cristo, mas não temos fugido da iniquidade. Também cantamos hinos que dizem: Oh! Que cego eu andei, / E perdido vaguei, / longe, longe do meu Salvador! Assumindo a culpa temos uma atitude completamente diferente dessa que domina o nosso mundo atual. É por isso que dizem que o evangelho é bastante negativo, que não tem qualquer proveito. Todos aqueles que têm confiança na sua própria habilidade, todos aqueles que possuem uma imagem positiva de si mesmos, não podem entrar no Reino de Deus, até as circunstâncias da vida o abaterem. Porque o espírito da pessoa precisa ser quebrado antes, para que ela, então, possa crer. É aí que os que não creem dizem não ser justo, e a nossa discussão vai longe.

Eu até entendo a preocupação deles e lhes dou uma certa razão, mas é isso mesmo. O evangelho é para os fracos, para os pobres, para os que não têm vez nem voz, os fracassados, os pecadores. Essa é a boa notícia. Essa é a profecia de Isaías do nosso texto bíblico de hoje: Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. 

Mas quem é esse que faz essas coisas? Isaías diz que ele é o servo do Senhor. Tem pessoas que dizem ser a própria nação de Israel. Outros acham que é o Reino de Deus. Mas para os cristãos, esse servo sempre tem sido Jesus Cristo. Contudo, seria mais importante perguntarmos o seguinte: quem é o Deus desse servo? Porque o Deus desse servo representa tudo que é bom, paciente e misericordioso.

Não esmagará a cana quebrada. A cana em si não representa muita coisa. Em muitos lugares é como o capim à beira da estrada. É como as pessoas sem expressão que ficam sempre à margem. São essas pessoas que vão ser recuperadas, que vão ser restabelecidas, porque para Deus elas são inestimáveis. A torcida que fumega fala do pavio de uma lamparina que está acabando, quase no fim. A lamparina foi feita para iluminar, mas esta está apenas com uma luz insignificante que mal se enxerga e soltando bastante fumaça. De acordo com a promessa de Isaías, essas lamparinas que não funcionam bem serão restauradas, serão limpas e reabastecidas, e não apagadas de vez. Atentem para esse simples versículo tirado da vida cotidiana de Isaías, porque nele Deus é revelado. Deus é paciente, Deus é manso em todas as suas maneiras. Seus propósitos não são para destruir, e sim para restaurar.


Não esmagará a cana quebrada, nem apagará a torcida que fumega. Vamos considerar esses dois elementos mais detalhadamente. Podemos imaginar um trator passando por um canavial. Nele a cana é quebrada por uma força exterior e tem sido vítima de circunstâncias alheias. Não por sua culpa que está quebrada. Muitos vivem uma vida de sofrimento sem ter culpa alguma. São vítimas do seu local de nascimento, de algum defeito congênito, de acidente ou de algum revez financeiro. Esses receberam um duro golpe que os fizeram cair, essas são as canas quebradas. Algum infortúnio os derrubou da vida.

O fato é que toda sociedade será julgada pelas suas atitudes para com os tais. Qual é a nossa atitude para com eles? Nós falamos sobre a democracia, mas vivemos numa sociedade de classes, em que cada um luta para conquistar mais privilégios para si. Isso está bem longe da democracia. Existe dentro de nós um sentimento latente que só os da elite têm valor. Está aí o grande sucesso das loterias entre nós. Todo mundo quer ser da elite. Todo mundo quer ter mais privilégios. A sociedade grega permitia o infanticídio em caso de imbecilidade, afinal, o que poderiam produzir os imbecis? Muitos homens creem o mesmo, e por isso querem a legalização do aborto. Para estes a força é a única virtude, e a fraqueza a única falha. Eles pleiteiam uma raça de super homens em que as canas quebradas serão eliminadas. Para eles a compaixão é um luxo que a humanidade não pode ser dar.

Não é assim no Reino de Deus. Lá ninguém é jogado fora. Os mais desprezados são justamente os mais amados. Eles têm suprema importância aos olhos de Deus. É isso que Isaías estava tentando fazer entender quando disse que o servo de Deus não veio para esmagar a cana que já está quebrada. 




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