O cântico de Ana

Ana leva Samuel ao templo, Jan Victors em 1645
O Senhor desbarata os seus contrários, o Altíssimo troveja do céu, o Senhor julga até os confins da terra. Ele dá autoridade a seu rei, exalta o poder do seu Ungido. Leia I Samuel 2.1-10

Colocado na boca de Ana, esposa idosa e infértil do sacerdote Alcana após ela dar à luz o filho que empresta seu nome ao livro, este texto parece mais o cântico de um rei que volta vitorioso de uma batalha, depois de ter vencido um inimigo numericamente superior. Mas ainda assim ele aborda temas que contém uma teologia bastante radical.

Mais do que simplesmente experimentar o sabor da vitória o vencedor se vê unido a Deus pela alegria. Reconhece que o resultado favorável da batalha se deu unicamente pela intervenção de Deus diante de um inimigo que era apoiado por outras divindades. Ficou patente para ambos os lados da contenda que a santidade exclusiva de Deus, a sua superioridade transcendente, o seu governo justo e a sua presença forte e protetora pôde ser comprovada e experimentada nos mais preponderantes detalhes.

Na vitória do mais fraco, revelou-se a soberania de Deus que dirige eficazmente o curso da história com um balanço de ascensão e queda: os valentes se acovardam, os covardes se encorajam; os famintos são saciados, os saciados passam necessidade; a fecunda se torna estéril, e a estéril gera uma grande prole. Essa alternância não é a roda da fortuna que gira cegamente sem sentido, mas é a ação de Deus quando encontra eco na responsabilidade humana. Os que estão no alto se elevaram em sinal da arrogância, de maldade e de opressão que governa o mundo, enquanto que os humildes e oprimidos se enriquecem no amor de Deus.

A vitória ultrapassa os limites da realidade histórica e alcança outras esferas: transcende a esfera cósmica, porque Deus firma e sustenta todo o universo e transcende também o limite definitivo do homem, pois vai muito além da fronteira entra a vida e a morte. A vitória do rei foi apenas um pequeno lado de um colossal triângulo. Um ato breve e insignificante diante da grandeza do todo e de tudo mais à sua volta. Contudo, sobre esse todo também gravita a soberania transcendente de Deus. O rei se alegra pela sua vitória, mas canta louvores aos grandes triunfos de Deus.

Mas onde Ana se encaixa no seu próprio cântico? Ana, que era desprezada pelas mulheres férteis do seu clã, agora é mãe do homem que tem o governo do povo judeu em suas mãos. Mais do que famoso e mais do que o mais importante da sua nação, ele terá o poder de ungir reis. Na sua vitória se revela o prenúncio de que seu filho fará um governo justo e que terá a aprovação de Deus. A milagrosa inversão que transformou uma idosa infértil em mãe é apenas um pálido sinal das inenarráveis proezas que Deus realizará através do seu filho. A reviravolta dos extremos sinaliza que os efeitos das manifestações diretas de Deus no governo de Samuel serão sentidos por toda a eternidade.

O cântico está cheio de reminiscências dos salmos. Nele encontramos as pérolas do pensamento hebraico. O paralelo indisfarçável entre vitória e salvação acompanha todas as estrofes. Não se pode afirmar com exatidão, mas a glorificação do Ungido de Deus aparece como algo para além de uma esperança. Mas com certeza, não foi a toa que a força das suas palavras influenciaram decisivamente um outro cântico em uma outra situação: O cântico de Maria, que declara a vitória definitiva do acordo de Deus com os homens. Esse acordo Deus não mais assegurado com vitórias passageiras, mas com o penhor do seu próprio sangue.

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