Honra a quem honra

Pagai a todos o que lhes é devido: a quem tributo, tributo; a quem imposto, imposto; a quem respeito, respeito; a quem honra, honra. Romanos 13.7
A adoração de Mamon, Evelyn de Morgan (1855-1919)
Se fôssemos usar um ditado antigo para definir a situação da Igreja hoje no Brasil, teríamos que dizer assim: a banana está comendo o macaco. Isto porque podemos observar claramente que inversão não se dá apenas nos valores e na tradição, mas também no reconhecimento de quem foi o que na História da Salvação. Por inúmeras vezes, ao citar John Wesley dentro da própria Igreja que surgiu do movimento iniciado por ele, ouvi pessoas me desafiarem com o seguinte disparate: John Wesley não é Jesus não! Claro que não. Se estas pessoas conhecessem um pouco do que representou Wesley na Historia da Igreja Cristã, jamais imaginariam coisa semelhante, o que somente vem reforçar a citação acima.


Já não cabe mais na maioria das igrejas a antiga galeria de fotos que nos contavam a história dos antigos heróis locais da fé. Por conseguinte, a galeria de heróis de Hebreus 11 também já merece qualquer consideração, a não ser quando são lembrados pelas bênçãos que receberam por seus testemunhos de fé, nunca por seus infortúnios. Parece que somos herdeiros por direito de uma plêiade de vitoriosos e vitoriosas em indistintamente todos os aspectos da vida.

Falo essas coisas pela revolta em que encontro, após participar de um culto em memória de uma prima, que faleceu esta semana, após uma dolorosa permanência em um hospital. Como parente mais próximo, me vi na obrigação de narrar um alguns feitos daquela que foi um orgulho para a fé de toda a família. Mas isso só ocorreu depois que o pastor chamou o que restava dos seus parentes diretos, para ministrar sobre eles uma bênção, da qual fiquei incluído fora, graças a Deus.

Falei que Neusa, esse é seu nome, foi uma das grandes heroínas que descendeu diretamente do trabalho de evangelização iniciado pelo meu pai entre seus sobrinhos. Citei que ela sempre foi uma fiel obreira na igreja em que seu tio foi um dos principais fundadores. Falei também da sua obstinada fé, mesmo depois que passou pela dor de ver um de seus dois filhos sendo consumido por uma diabetes, que o fez sofrer sucessivas amputações até o dia da sua morte. Falei que esta mulher continuava afirmando, a despeito de tudo, que nada a podia separar do amor de Deus. Falei que ela cantava sem titubear: As tuas mãos dirigem meu destino. O acaso para mim não haverá.  Finalmente falei da pequeneza na minha fé diante desta conduta inabalável, para encerrar dizendo que o meu encontro com ela na glória dos céus seria improvável, posto que ela havia conquistado um lugar bem mais próximo do trono de Deus do que aquele que estava destinado a mim.

Não é que para minha surpresa o pastor daquela Igreja voltou as suas atenções para mim, com o intuito de evangelizar o pobre pecador que ali declarava a sua total insuficiência na fé? Não é que ele queria aproveitar o gancho para engrenar um exorcismozinho de leve? Com isso ele deixou bem claro duas coisas: Primeiro, que o seu ministério à frente daquela Igreja que já encontrou pronta, era mais eficaz e mais importante do que tudo que havia acontecido antes da sua chegada. Segundo, que não importava tanto as manifestações de fé dos membros, nem que eles preservassem íntegra a pergação do evangelho em suas atitudes, nem com a sua transmissão incólume às gerações posteriores, feitos que levaram aquela Igreja a ser reconhecidamente uma bênção por várias gerações. Mas exaltou, e muito, o valor da Neusa pela regularidade e benevolência na contribuição financeira, esta foi a virtude que melhor a representava, e a que mais deveria ser seguida.

O macaco está realmente sendo comido pela banana, e haja macaco para dar prosseguimento a esta história. O que me preocupa nesta situação não é se depois de tudo, ainda vai sobrar uma comunidade de fé para eu dividir as minhas esperanças e inquietações. Não é isso. Mesmo sabendo da quantidade enorme de pastores que são ordenados diariamente, não me sinto ameaçado de ficar sem emprego, mesmo porque não tenho, até hoje, o ministério pastoral como fonte de renda. Ainda tenho o orgulho de, assim como o meu pai e como o meu mentor, Rev. Jonas Rezende, dizer: nunca recebi qualquer quantia de igreja alguma.

Mas isso não é sobre mim, é sobre os destinos de uma fé cristã que já foi referência em todos os mais exigentes padrões de conduta, e hoje está desacreditada, anacrônica, centrada em si e completamente alheia aos anseios do mundo à sua volta;

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