Cair da graça

A queda de Lúcifer, The Creation em 1990
Um amigo sempre dizia que não existe caminho sem volta justificando assim: Há pelo menos o caminho que serviu de ida. Olhando sob este aspecto, qualquer buraco, encrenca ou dificuldade que nos aconteça, teria como alternativa imediata o retorno à origem. Sabemos bem que este não é um princípio que se aplica a todos e a qualquer situação. Sabemos também que existem buracos negros na nossa vida que não só impedem a volta, como também consomem todas as nossas esperanças, destruindo as pontes que nos serviram e que ficaram atrás de nós. Isso, quando não somos nós mesmos que queimamos os nossos próprios navios, na tentativa de romper definitivamente com o mundo e com o passado.

E a questão da fé, é mesmo um caminho definitivo e sem volta? Como dizem algumas doutrinas: uma vez na graça, sempre na graça? Não sei exatamente se foi João Calvino quem elaborou esta doutrina, mas, com certeza, foi o seu grande divulgador. Não sei também se é somente nas igrejas que conheço, mas esta doutrina já não é mais tão visivelmente predominante como era há tempos atrás. Contudo, se analisarmos com critério algumas situações concluiremos que: pode ser que na teoria não se pense exatamente assim, mas muitas das práticas existentes nos círculos cristãos não permitem que ela fique totalmente esquecida. O que existe de fato na Igreja de Jesus Cristo hoje é uma nociva superestimação da graça de Deus. Predomina entre nós uma certeza de que podemos fazer qualquer coisa, adiar qualquer compromisso, relevar qualquer preceito, que a graça responderá positivamente consertando as coisas, para que no final tudo acabe bem e que sejamos sempre felizes para sempre. Afinal, uma vez na graça, sempre na graça.

Em um dos sermões gravados do Rev. Garrison, ele diz: assim como um navio é responsável pelo seu sulco, cada pessoa é responsável pelo rastro que deixa para trás. E aqui nós nos encontramos em um dilema. Quando nós somos flagrados em alguma falta, clamamos para que a graça não permita que paguemos por esse nosso erro. Mas quando somos nós que saímos prejudicados pelas más atitudes de outros? Vamos clamar a Deus que também perdoe a falta deles e que deixe tudo esquecido no passado? Será que a graça tem o poder de recompensar satisfatoriamente todos os envolvidos na questão, ou ela deve se preocupar apenas com quem está realmente nela?

O perdão existe e está sempre disponível, mas ele custa caro. Ele cobra o preço do arrependimento sincero, da consciência do mal praticado, da pré disposição de não tornar a repeti-lo e da sensação de estar em dívida com quem saiu machucado. O perdão, embora seja definitivo e irreversível, não é capaz de eliminar todas as sequelas, e por si só pagar a dívida, quando esta ainda pode ser integral ou parcialmente paga por nós.

Já deixei bem claro de que não compartilho com esse clima de vitória que é manifestado pelas liturgias de culto e, principalmente, pela hinologia cantada nas igrejas hoje em dia. Temos sido constantemente alertado através de apelos e clamores de alguns poucos pastores, no sentido de manifestarmos de alguma maneira a nossa indignação contra a forma com que o rebanho do Mestre tem sido conduzido na grande maioria das igrejas. Contra a exploração da fé, o mau uso dos recursos das ofertas, a atração de fiéis pela ganância, falsas promessas que jamais serão cumpridas, curas arranjadas, comércio de amuletos nos templos e a pedofilia que viola para sempre a inocência das nossas crianças.

Quem sabe se não deveríamos invadir os espaços de culto denunciando quem são os verdadeiros lobos sanguinários que aviltam o evangelho, assim como os nossos jovens estão invadindo os espaços públicos e confrontando a polícia para denunciar os políticos corruptos? Ele vão nos chamar de vândalos. Vão dizer que estamos possuídos pelo demônio. Vão mandar nos prender. Vão nos levar aos tribunais. Vão alegar que não permitimos a liberdade religiosa. Mas não vão tirar das nossas consciências a certeza de que estamos firmemente ligados ao nosso primeiro amor.

Se realmente cremos que uma vez na graça, sempre na graça, o mínimo que podemos fazer é seguir a velha canção que diz:
Antes de um escravo ser
Eu prefiro aqui morrer
E no céu, com Jesus, livre estar.

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