Vingança ou justiça?

Foto de http://blogdolobo.com.br/2013/07/cade-o-amarildo/
Na Bíblia estão contidos textos em que a relevância destes dois temas se mostra extremamente importante. Eu destacaria Dt 32.35, que diz: A mim me pertence a vingança, a retribuição, a seu tempo, quando resvalar o seu pé; porque o dia da sua calamidade está próximo, e o seu destino se apressa em chegarE também Is 11.3s: Deleitar-se-á no temor do SENHOR; não julgará segundo a vista dos seus olhos, nem repreenderá segundo o ouvir dos seus ouvidos; mas julgará com justiça os pobres e decidirá com equidade a favor dos mansos da terra; ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso.

Diante do que nos está sendo exposto, devemos nos perguntar: Até que ponto as sentenças de um julgamento justo estão isentas do tentador desejo de vingança? Esta é uma pergunta bem pertinente, principalmente no nosso contexto atual, em que minorias estão, na concepção de muitos, extrapolando através da vingança o seu direito de reivindicar justiça. O que mais se ouve hoje as pessoas fazerem a seguinte afirmação: quebrar lojas está errado, ao passo que depredar bancos é o certo. Este é o julgamento simples e sumário que o povo brasileiro faz contra os grandes vilões da livre e consentida opressão que o sistema financeiro exerce sobre nós. Estamos dizendo ao mundo que as lojas e instalações públicas estão sendo destruídas pelo enganoso desejo de vingança, mas que as instituições financeiras estão sendo depredadas pela mais completa, embora tardia, justiça que já se praticou neste país.

A despeito de todo esse imbróglio, eu queria destacar a “conversão” pela qual passou um dos proprietários da Toulon, que teve uma das suas lojas completamente vandalizada em um dos protestos que visava exclusivamente um de seus vizinhos, o governador Sergio Cabral. Depois de um depoimento emocionado em que ele mostrou toda a sua indignação e revolta contra a destruição do seu patrimônio acumulado através dos longos quarenta e três anos de trabalho. Disse Eduardo Ballesteros, sócio da Toulon, em um primeiro momento: Nunca vi uma maldade tão grande! Quem mais perde com o vandalismo é o Rio de Janeiro. Isso quando ainda não havia calculado a extensão do seu prejuízo.

Imediatamente após esse justo desabafo de revolta, a loja depredada passou a exibir em sua vitrine mensagens contra quem julgou serem os reais causadores da sua perda: o governo brasileiro em todos os seus escalões. A primeira mensagem dizia assim: Se houvesse vontade política de mudar alguma coisa, a reunião de hoje não seria só com a Secretaria de Segurança, mas com a de Educação, Saúde etc. E as que se seguiram também foram todas no mesmo tom, sendo que uma das mais emblemáticas cobrava do governo a paradeiro do pedreiro Amarildo, que sumiu naquela mesma madrugada, após ter ser levado pela polícia, confundido que foi com um foragido da justiça.

Não conheço os proprietários da Toulon, e nem sei quais eram as suas tendências políticas e religiosas antes do acontecido. Mas sei que eles souberam muito bem fazer a transposição da sua indignação para um clamor de justiça, que anteriormente não se fazia ouvir.

Uma das características do Servo Sofredor de Isaías, talvez a que menos dava a ele o controle sobre a situação, era aquela que dizia: Por juízo opressor foi arrebatado, e de sua linhagem, quem dela cogitou? Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo, foi ele ferido. Ou seja, não foi pelo muito que se dizia a respeito, muito menos pelo tudo que era anunciado aos quatro ventos, mas foi sentindo na própria pele o sofrimento de todo um povo, que o profeta diz que a verdadeira avaliação de uma situação pode ser feita. Somente quem acompanha de perto o crescimento da injustiça pode esperar que a justiça venha de forma avassaladora e implacável.

Seria bom que a Igreja se espelhasse nessa virada dada pela Toulon, e que analisasse segundo os padrões da nossa única regra de fé e prática até onde vai o que se pode chamar de vingança, e onde realmente começa a justiça que “ferirá a terra com a vara de sua boca e com o sopro dos seus lábios matará o perverso.”


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