A realidade é mais complexa

Os que com lágrimas semeiam com júbilo ceifarão. Quem sai andando e chorando, enquanto semeia, voltará com júbilo, trazendo os seus feixes. Salmo 126.5-6
O galho de ouro,  J M W Turner (1775-1851)
Está aí um salmo propício para alentar a esperança de quem passa por alguma aflição ou por quem aguarda uma resposta definitiva. Não somente os versículos citados, mas todo o salmo, porque ele fala justamente de uma mudança para melhor, e a julgar pela euforia do salmista, para muito melhor. Tão melhor que foi reconhecida e celebrada até mesmo por estranhos. Contudo, não são as sensações imediatas que determinam o contexto original do texto bíblico. Que a Bíblia toda serve para encorajar a nossa caminhada de fé, não há quem conteste, mas seria bom que entendêssemos as motivações dos seus escritores, para que nos chegássemos mais próximos do ela realmente quer comunicar.


Em rápidas palavras, eu gostaria de citar três das algumas linhas de interpretação dos versículos citados, como também abordar rapidamente os seus contextos.

A primeira e mais imediata interpretação nos dá conta de alguém que reconhece o valor de um favor divino, mas que este ainda não lhe é suficiente, por isso pede mais. Como é comum a todo pedinte, um semblante penitente pode fazer toda a diferença. Mostrar-se humilde, com cara de choro, ou até mesmo chegar aos prantos, pode ser um bom indicador da real necessidade do que está sendo pedido. Sei que é pedir muito hoje em dia, mas diante das cobranças que muitos fazem a Deus e diante das exigências de cumprimento de promessas que nunca foram prometidas, um pouco de solenidade e comedimento em nossas petições seria recomendável. Bem disse Billy Graham: Avivamento não é descer a rua batendo um grande tambor; é subir o calvário em grande pranto.

Sabemos bem que Deus nos trata como filhos, e não como empregados ou escravos, como queria ser tratado o filho pródigo. Por isso, esta interpretação, por mais piedosa que seja, escapa um pouco do que se entende de uma relação aceitável com Deus.

A segunda interpretação, um pouco mais comprometida, levaria em conta a escassez de alimento na região, causada principalmente pela aridez do solo. Daí o salmista clamar para que as torrentes alaguem o Negueb, que como o nome já sugere, são terras secas, cultiváveis apenas quando irrigadas pelas enchentes. Nesta circunstância, o lavrador precisa tirar da família parte das poucas sementes que lhe restaram para o seu sustento, e plantá-las na esperança de uma colheita futura.

Aqui o salmista estaria expressando a realidade angustiante daquele que semeia com fome, daquele que joga a semente ao chão com os olhos marejados, na esperança de sobreviver até o dia da colheita. Embora comprometida, esta exegese contrariaria princípios básicos do amor de Deus, que não exige de nós sacrifícios e sim misericórdia.

Talvez uma terceira visão a partir da condição humana fosse mais apropriada. Tanto o Israel de Deus antigo quanto o atual são suscetíveis a crer no resultado imediato, não importando muito os meios para obtê-los. Importante hoje é uma igreja cheia de gente que contribui e adora. Assim como o Israel antigo, o Israel atual vive cercado de atrativos pagãos, que seduzem irresistivelmente. Assim como o antigo, o atual tem se deixado levar pelos resultados imediatos.

Sabe-se bem que os povos pagãos adoravam deuses especializados. Não era por mero acaso que os deuses da fertilidade e da agricultura exigiam rituais de orgia e autoflagelação. Uma cena comum naquela região era ver um lavrador se autoflagelando em louvor a um deus enquanto semeava. Os judeus viam que isso estava dando resultado, e que lançar a semente com lágrimas ou com o sacrifício próprio, não estava. Por que não experimentar o chicote? Não custa nada! Eles nunca atentaram para o fato de que as terras dos pagãos eram mais próprias ao plantio do que a deles. Nunca reconheceram que o caminho bom é o estreito.

Particularmente, fico com essa interpretação. Fico com o salmo que é, antes de tudo, um alerta, mesmo servindo para nos dar esperança. A realidade do salmo é a nossa certeza de que uma colheita jubilosa não depende de lágrimas, de sacrifício ou do nosso sangue. Depende sim da nossa submissão em aceitar como boa qualquer dádiva que procede das mãos de Deus, e sermos sempre agradecidos por ela.



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