Dez virgens e muitas dúvidas

E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando. Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outras! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o. E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram as virgens néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço.Leia Mateus 25.1-13
Parábola das dez virgens,  Hieronymus Francken I (1540–1610)   
E as néscias disseram às prudentes: Dai-nos do vosso azeite, porque as nossas lâmpadas estão-se apagando. Mas as prudentes responderam: Não, para que não nos falte a nós e a vós outras! Ide, antes, aos que o vendem e comprai-o. E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas; e fechou-se a porta. Mais tarde, chegaram as virgens néscias, clamando: Senhor, senhor, abre-nos a porta! Mas ele respondeu: Em verdade vos digo que não vos conheço. Leia Mateus 25.1-13

Esta é parábola na realidade de hoje se chamaria a história verídica dos sem gás. Por que quem de nós já não ficou no escuro sem vela, no meio da rua sem gasolina, do lado de fora do carro e as chaves do lado de dentro e no trabalho sem a mínima disposição? Quem é que já não disse para si mesmo: hoje eu estou sem gás? Com toda a tecnologia que dispomos contra os blackouts da vida isso seria quase que indesculpável, mas no tempo de Jesus não era bem assim. Não dava para prever com exatidão quando uma lamparina iria necessitar novamente repor seu combustível. Então a pergunta é a seguinte: Se nós conseguimos nos perdoar todas as vezes e por todos os motivos que ficamos sem gás, por que um evangelho de amor indescritível e de perdão incondicional, não perdoaria de igual modo as cinco virgens imprudentes que ficaram fora da festa?

Quem primeiramente levantou esta questão para mim foi o nosso saudoso amigo João Wesley. Esta mensagem pode muito bem ser creditada a ele, através da seguinte dúvida: não teria esta parábola um significado maior do que condenar sumariamente cinco moças que na aflição do agito de um grande dia esqueceram em casa um insignificante vidro de azeite? Está mais do que claro que o contexto é o final dos tempos, que na interpretação de muita gente virá de supetão. Teria que ser uma exata reedição da arca de Noé, pegando todo mundo literalmente de calça na mão.

Porém, antes de bater o martelo do Juízo Final precisamos considerar alguns aspectos que estão omitidos nesta seletiva parábola, e ter em mente que os casamentos daquela época, pouquíssimas semelhanças têm com os casamentos de hoje. Por isso precisamos perguntar: De onde vem o noivo? Por que ele está atrasado? Que lugar é esse em que as dez virgens ficam à espera para entrar na festa? O que vai acontecer de bom e relevante para elas nesse lugar? Qual a importância das lamparinas nessa celebração? E o principal: onde está a noiva? Quem tem o direito de chegar atrasado ao casamento é a noiva. É ela também quem providencia os apetrechos e vestimentas das suas damas de honra. E ainda há um aspecto fundamental: é a noiva quem diz quem entra e quem não entra na sua festa, e não um senhor com letra minúscula. Então não dá para fazermos um julgamento tão sumário assim.

Sem querer explorar os recursos meramente especulativos que esses atenuantes oferecem, eu queria falar do principal motivo da exclusão, que é a lamparina sem azeite. Na realidade, o texto não fala exatamente em lamparinas, mas em tochas, que é algo bem maior e bem mais brilhante. A palavra λαμπάδας, que no grego é lâmpada mesmo, usada aqui se refere ao mesmo utensílio usado pelos homens que vieram prender Jesus em João 18:3. Era algo para quebrar a escuridão da noite no campo, e não para ser usado comedidamente dentro de casa. E essas λαμπάδας eram abastecidas com betume de petróleo, e não com azeite.

Parece que a questão aqui é de uma iluminação crucial, onde nem mesmo dez lamparinas de azeite seriam suficientes.  Então teríamos na parábola cinco virgens com lamparinas de azeite e cinco outras com tochas de betume. Como Jesus não está contando esta parábola para os seus adversários, os escribas e fariseus, e sim para os mais os amigos chegados, eu imagino que nós podemos identificar bem dois momentos da vida cristã. Um dentro da igreja, onde pequenas luzes são suficientes para iluminar a todos. Mas acontece que existe também o momento da caminhada na escuridão em um mundo adverso. Existe a hora em que precisaremos de muito combustível para conseguir manter as nossas lâmpadas acesas. Chegará o momento em que precisaremos de muito gás, muito mais do que o normal para enxergarmos o que vem em nosso encontro e o nos prepararmos para o que pode acontecer à nossa volta.
O texto fala de uma caminhada no escuro, em que fatalmente nos perderíamos, caso nos faltasse o gás necessário. Uma caminhada perigosa fora do conforto e da iluminação das pequenas luzes dos irmãos da fé. Talvez o maior perigo denunciado por essa parábola, que descreve logicamente a caminhada da fé, não fosse exatamente o de batermos na porta certa e ficarmos, por um tempo, do lado de fora, como quem aguarda no limbo. E sim o de batermos na porta errada e ficarmos trancados nos iludindo com a fraca iluminação das pequenas luzes de uma falsa segurança por toda a eternidade.

As parábolas de Jesus não são ameaças com as quais podemos assombrar os que não creem, para que eles passem a crer como nós cremos. Pelo contrário, nós é que deveríamos ficar assombrados. Quando o rev. Edson pergunta: quem são os escribas e fariseus, a minha vontade é de responder: somos nós. Quem são os bons? Quem são os retos? Quem são os salvos? Nessa parábola, quem são os prudentes, senão nós mesmos? Pelo menos é esse o nosso balanço de nós mesmos. Mas é nessa hora que o paradoxo do evangelho vem nos desafiar. E ele não o faz através das virgens prudentes no conforto da festa, do que está aparente nas parábolas. Mas através daqueles que estão lá fora, com uma luz que está oculta aos olhos dos poderosos e dos estão se achando cheios de gás. Ainda bem, não é? Porque é quando nos sentimos completamente sem gás que o noivo chega. E nós conhecemos bem o que esse noivo é capaz de fazer pelos fracos, pelos falidos, pelos derrotados, por todos aqueles que estão sozinhos e perdidos na escuridão de um mundo adverso, completamente sem gás.


É nessa hora, e somente nessa hora que graça nos alcança. Ou a graça vem ao nosso encontro quando estamos sem gás, ou simplesmente ela não vem o nosso encontro. É uma coisa ou outra. E certamente ela não vem quando nos achamos os tais. É exatamente essa a profecia de Isaías para a chegada do Messias: O povo que andava em trevas, viu grande luz.

Outra abordagem

A reboque de pecado de ontem cometido contra o meu professor, vou cair mais uma vez em tentação e fazer alguns comentários sobre esta, que considero a mais intrincada parábola contada por Jesus. E isso que eu digo não deve ser considerado simplesmente como uma citação, mas é sim como um aviso para que vocês não tenham esperança de descobrir aqui o menor indício de explicação ou resposta.

Todo mistério que envolve a parábola advém das circunstâncias em que ela acontece. Nesta parábola, que é exclusiva do evangelista Mateus, Jesus realmente nos apresenta uma cerimônia de casamento totalmente inusitada. O salmo 45 nos dá a dimensão exata da importância de um processional de casamento: Em roupagens bordadas conduzem-na perante o Rei; as virgens, suas companheiras que a seguem, serão trazidas à tua presença. Serão dirigidas com alegria e regozijo; entrarão no palácio do Rei. O salmo nos mostra que as noivas são conduzidas à presença do noivo, um ritual que perdura até os nossos dias com a mesma importância relatada pelo salmista. Por ser tão requintada, esta cerimônia é normalmente descrita como um momento de “pompas e circunstâncias”. Na narrativa de Jesus não há nada disso. Não há quem conduza as noivas e muito menos quem providencie os elementos primordiais para a sua entrada. Como diz na minha terra, foi um casamento à la Bangu, fazendo referência não ao bairro do subúrbio carioca, mas ao Bangu Atlético Clube, um time de futebol no tempo em que era dirigido por um bicheiro conhecido pelas suas trapaças.

Outro detalhe de suma importância nesta narrativa é que  são as damas de honra que literalmente têm que correr atrás do noivo. Pode ser até uma antecipação da situação em que vivemos, mas naquela época as coisas não eram assim. Pelo menos não é o que diz a Bíblia em Cantares 2, 8: Ouço a voz do meu amado; ei-lo aí galgando os montes, pulando sobre os outeiros. E mais explicitamente em 5,2: Eu dormia, mas o meu coração velava; eis a voz do meu amado, que está batendo: Abre-me, minha irmã, querida minha, pomba minha, imaculada minha, porque a minha cabeça está cheia de orvalho, os meus cabelos, das gotas da noite. Para espanto de todos, exatamente a hora que seria reservada para o recolhimento do casal ao leito nupcial, o anfitrião marca para dar início ao banquete.

Embora todos esses argumentos sejam apenas detalhes superficiais da parábola, eles nos remetem a fatos relevantes como o tema da vigilância. Mesmo que os fatos não tenham sido narrados numa sequência muito lógica, eles conferem realismo à parábola por tratar de assuntos do presente como do futuro. Quando se refere a uma cerimônia de casamento, fala de um fato corriqueiro da nossa realidade. Mas a parábola nos remete também ao futuro escatológico, quando vislumbra a noiva celestial que desde sempre anseia pela vinda do seu noivo, como diz Alonso Schökel: Não nos esqueçamos que o Apocalipse e a própria Bíblia terminam com a espera ansiosa da noiva/comunidade pela vinda do esposo.

Para consolidar o tema do julgamento das nações, que como disse na postagem anterior, encerra o capítulo 25, as moças estão divididas em dois grupos distintos pelas suas atitudes. Enquanto umas são chamadas de prudentes ou sensatas, as outras são as imprudentes e insensatas. Os temas da prudência e da insensatez são bastante concorridos no livro dos Provérbios como no livro deuterocanônico do Eclesiástico. Estes livros chegam a personificar ambas chamando-as por nomes próprios de Sensatez e Senhora Insensatez, porque concluem que nelas reside o sentido último da existência humana. A Sabedoria construiu a sua casa sobre sete colunas. Pv 9,1

O texto também fala sobre o cuidado que se deve ter com o óleo que alimenta as lamparinas, como este fosse a expressão máxima da vigilância noturna, e que tem características próprias e se fundamenta em prescrições importantíssimas. Para este assunto em particular, o que vale mesmo é a responsabilidade pessoal, pois não dá para transferirmos para outrem este sentimento de vigilância constante. A noite em que o noivo chegar será uma noite jamais igualada, e será envolvida em um clima de alegria e êxtase. Como nos assegura Jesus, não é noite para ninguém dormir, pois o noivo que está para chegar é diferente de tudo que até então já se viu e já se ouviu. É exatamente assim que o descreve o escritor do livro de Cantares: Prometam, mulheres de Jerusalém: se vocês encontrarem o meu amado, digam que estou morrendo de amor. Você, a mais bela das mulheres, responda: será que o seu amado é melhor do que os outros? O que é que ele tem de tão maravilhoso para fazermos essa promessa a você? Entre dez mil homens, o meu amado é o mais bonito e o mais forte. Ct 5,8-10

0 comentários. Faça o seu:

 
Copyright 2012 Amós Boiadeiro. Powered by Blogger
Blogger by Blogger Templates and Images by Wpthemescreator
Personal Blogger Templates