Um Deus Violento

Miguel e o Dragão, Guido Reni (1575-1642)
...também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre, diante dos santos anjos e na presença do Cordeiro. Apocalipse 14.10

Antes de ser sancionada a lei do divórcio no Brasil havia em uma igreja evangélica das mais tradicionais um casal que era exemplo de conduta cristã. Principalmente a mulher, uma pessoa reconhecidamente boa e incansável participante em todas as atividades locais. Tudo ia bem até descobrirem que eles não eram legalmente casados, ela já havia contraído matrimônio com outro homem anteriormente. Foi aí que uma comissão de notáveis procurou o pastor para que destituísse aquela senhora dos cargos que ocupava até que a situação fosse resolvida. Encurralado pela veemência do grupo, restou ao pastor perguntar-lhe o que pensavam fazer para que a situação fosse, como eles mesmos disseram, resolvida. Estamos orando para que Deus dê um jeito para que eles possam se casar legalmente, responderam eles.

Não faz muito tempo, a neta de cinco anos de um pastor, uma criança visivelmente transtornada pela perda da exclusiva atenção que lhe era dispensada, em virtude da chegada de um irmãozinho, perguntou-lhe: Vovô, se eu orar bastante o meu irmão morre?

O que o antigo versículo bíblico tem em comum com os dois fatos mais recentes? O primeiro texto, o do Apocalipse, mais do que uma visão de uma realidade futura, é o desejo latente de vingança entre os cristãos no final do primeiro século. Um desejo em forma de invocação, para que Deus extermine de forma brutal os opressores romanos a quem consideravam os únicos culpados pelo seu miserável estado. Na segunda narrativa, a do casal não casado, a igreja invoca a Deus para que dê um jeito de executar sumariamente o ex-marido, mesmo que este sequer tenha conhecimento de que se tornara a parte inconciliável de um dilema criado pela igreja. Na terceira, a oração da criança pede que Deus mate um parente próximo que é totalmente inocente.

Os três textos relatam situações em que Deus é conclamado a realizar por nós algo que nós mesmos, quer por incapacidade, quer por não dispormos dos meios, julgamos ser iníquo e jamais  ousaríamos fazê-lo. Se o segundo e terceiro casos denunciam a condenável agressividade que existe dentro de cada um de nós, quer estejamos sozinhos ou em sociedade, quer sejamos adultos ou crianças, por que somente o texto bíblico deve ser obrigatoriamente julgado por um prisma diferente? Se os casos posteriores revelam a negligência de quem se omite em arcar com as consequências macabras de uma solução que imagina ser a única, por que o versículo, da mesma forma, não revelaria esta face sombria em João e em sua igreja. Se os abomináveis fatos do contemporâneo denunciam a nossa insolência perante a santidade de Deus, convocado-o a sujar as mãos em nosso lugar, por que os textos bíblicos que reivindicam exatamente o mesmo são vistos como aceitáveis e justificáveis? Não seria por que visualizamos as atrocidades do Apocalipse fora do contexto da mensagem cristã, em uma era escatológica onde o “não matarás” e o amor incondicional ao inimigo há muito deixaram de ser mandamentos?

Algumas ponderações devem ser feitas antes de qualquer conclusão precipitada. Primeiramente creditar ao texto bíblico total honestidade e transparência, porque nele descobre-se mais rapidamente o estado emocional do escritor ou do personagem em questão, do que propriamente a inspiração divina por trás dos seus relatos. A Bíblia é suficientemente fiel e transparente para expor as mazelas e sandices de todos os envolvidos, não sendo complacente nem mesmo com os seus mais conceituados heróis. Em segundo lugar, deve-se evitar confundir inspiração com aval. Uma coisa é entender que Deus está sempre ao lado do oprimido e contra qualquer forma de opressão, e que conclama a todos à liberdade. Outra é inferir que ele endossa quaisquer meio de conquista desta liberdade, inclusive aqueles que venham privar outros da sua liberdade e até da própria vida. Mas principalmente não devemos nos esquecer que o cristianismo crê em um Deus imutável, zeloso e irredutível quanto aos critérios de amor, de verdade e de justiça. Como assim bem disse o salmista: Para sempre, ó Senhor, está firmada a tua palavra no céu. (continua)

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